Agronegócio

Pecuária: “Custo mais alto e cada vez mais o produtor enfrentando mais riscos"

A pecuária brasileira passou por momentos complicados, mas acumulou resultados positivos ao longo de 2021, como recordes nos setores de avicultura e suinocultura. O setor também foi impactado pelo aumento de custos de produção, crise econômica e estiagem, além da falta de animais para o mercado interno. Os acontecimentos do último ano foram assunto da primeira live Destaque em Pauta de 2022, com o Chefe Geral Embrapa Pecuária Sul, Fernando Flores Cardoso, que também trouxe projeções para 2022.

“O que a gente vê na pecuária é isso: um custo mais alto e cada vez mais o produtor enfrentando mais riscos nesse próximo ciclo”, resumiu Cardoso sobre o aumento dos custos de produção. Antes mesmo do aumento dos insumos, o setor já era impactado pela alta das commodities. Isso encareceu a alimentação e fez com os produtores buscassem a terminação a pasto. “Reduziu muito a viabilidade do confinamento e da terminação intensiva em grãos”, explicou. 

A safra atual foi plantada com preços ainda mais altos, o que aumenta os riscos. “Isso não necessariamente vai refletir no aumento do preço de venda do produto, então o risco aumentou tremendamente. Nós estamos enfrentando essa estiagem, que deve reduzir a produção”, lembrou o Chefe Geral. 

Estiagem na pecuária

O quadro das pastagens no Rio Grande do Sul já é considerado crítico pelos efeitos da estiagem. Além disso, 1,6 milhão de litros de leite estão deixando de ser captados por dia no Estado, segundo levantamento da Emater/RS-Ascar. A situação do setor é apontada como dramática pelo impacto imediato e queda da competitividade. “Dentro da alimentação, o componente pasto é o que consegue ser produzido ao menor custo”, aponta Cardoso.

Na pecuária de corte, os efeitos podem demorar mais um pouco a serem sentidos, já que o período atual é de acasalamento e reprodução. “Isso pode ter um impacto em redução nas taxas produtivas para esse ano, que vai gerar menos bezerros no ano que vem”, avalia o especialista.

Falta de animais

“Muitas áreas que eram tradicionalmente ocupadas pela pecuária de corte estão sendo usadas mais recentemente para a agricultura”

Fernando Flores Cardoso – Chefe Geral Embrapa Pecuária Sul

A pecuária de corte registrou em 2021 falta de animais para abastecer o mercado doméstico. Duas causas são apontadas para o problema. A primeira é o ciclo natural da atividade, que traz momentos de baixa na oferta de animais para abate, o que eleva o preço. No entanto, também há uma redução de área.

“Muitas áreas que eram tradicionalmente ocupadas pela pecuária de corte estão sendo usadas mais recentemente para a agricultura, especificamente para lavoura de soja, que tem tido uma boa produção”, aponta Cardoso. Essa situação ocorre mais particularmente no pampa gaúcho, onde também é incentivada pela tecnologia e bons preços. 

Além disso, há uma demanda aquecida, motivada principalmente pela China, que afetou o mercado até setembro, quando ocorreu a suspensão das exportações. Nesse cenário, os produtores retêm as matrizes para produzir mais bezerros, o que acarreta em uma oferta ainda menor. 

Sustentabilidade

O tema teve atenção especial em 2021 com a COP26 e o compromisso assumido pelo Brasil, junto a outros países, de redução das emissões metano em 30% até 2020. Essa ação é considerada importante pelo Chefe Geral da Embrapa Pecuária Sul. “Felizmente a gente tem tecnologia para mitigar completamente as emissões de metano através da fixação de gás carbônico, ou seja da remoção da atmosfera pelas plantas, pelas pastagens bem manejadas, pela recuperação de áreas degradadas e também pela interação com agricultura e floresta. Os modelos de integração pecuária, lavoura e floresta são a grande solução para a questão do ciclo do carbono e seu impacto no aquecimento global”, destaca o especialista. 

Ele acredita que o país tem condições de neutralizar as emissões e afirma que mais de 10 milhões de hectares no Brasil já são de áreas de integração. Além disso, essas tecnologias também apoiam a rentabilidade dos produtores. O manejo permite produzir mais e alimentar melhor os animais, que crescem mais rápido, trazendo maior rentabilidade e um ciclo mais curto, levando novamente a emissões menores, segundo Cardoso.