Pecuária

O caso JBS recai sobre a pecuária brasileira? Analista avalia o que fica de lição para outros frigoríficos

Alcides Torres, da Scot Consultoria, fala que formação de preço na pecuária global não muda, mas internamente acende um alerta sobre sustentabilidade nos negócios

Carnes
Foto: Recep Aktas/Divulgação

Desde o final de fevereiro, atores envolvidos na pecuária brasileira têm voltado as atenções para a acusação de greenwashing às subsidiárias americanas da companhia JBS, nos Estados Unidos, feita pela procuradoria-geral de Nova Iorque. Soma-se a isto o histórico recente de queda da JBS no ranking do Coller FAIRR Protein Producer Index, índice ESG da indústria da carne. Embora seja a maior processadora de carne do mundo, a empresa está na 22ª posição do indicador. Na prática, o que isso significa para a pecuária brasileira? Como os holofotes norte-americanos podem iluminar o cenário interno? Preço, aprimoramento da produção, transparência e reputação são fatores relevantes para a lição de casa, não apenas da própria JBS, mas também outros frigoríficos.

O fantasma da corrupção

Em termos de preço da commodity global pouco muda. A formação dos preços depende da produção de diversos países e não é um caso específico de uma empresa brasileira que irá desestabilizá-los. É o que explica Alcides Torres, analista-chefe da SCOT Consultoria. Ele comenta os Estados Unidos são os maiores produtores mundiais de carne bovina, com volume estimado em 12,3 milhões de toneladas em equivalente de carcaça em 2023, de acordo com recente relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A partir desta informação sobre a produção interna norte-americana, cujo Canadá também é relevante, Alcides não acredita que a ação da promotora Letitia James seja uma forma de protecionismo estadunidense sobre a pecuária brasileira.

“É um histórico, o currículo da JBS não é dos mais limpos. Então, essa promotora deve ter estudado o histórico de corrupção no Brasil e estão de olho. Por isso, acredito que seja uma bronca maior sobre a JBS do que sobre a pecuária brasileira”, diz o analista.

JBS nos Estados Unidos

A atuação da empresa nos Estados Unidos não é recente. De acordo com o relatório de sustentabilidade da companhia, a JBS USA Pork é a segunda maior produtora de carne suína in natura do país americano, com cinco unidades de produção de carne suína e capacidade para processar 92.000 suínos por dia e mais uma unidade de processamento. Em 2019, a JBS USA Beef e a JBS Foods Canada compraram mais de oito milhões de cabeças de gado de aproximadamente 32.000 agricultores familiares e pecuaristas parceiros. Os números demonstram o tamanho da empresa na América do Norte e explicam a negociação da companhia para abertura de capital na Bolsa de Nova York. A entrada no mercado de capital está dificultada há meses. Em setembro de 2023, 16 organizações ambientais, de bem-estar animal e de direitos dos povos indígenas enviaram uma carta à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) e centenas de investidores associando a atividade da JBS e os riscos da pecuária ao clima. No documento de resposta à SEC, a JBS concorda que há riscos socioambientais no modelo de negócio e, em caso de não comprovação da origem ou processo produtivo, estará sujeita a multas.

“A criação de gado e outros animais está às vezes associada ao desmatamento, invasão de terras indígenas e áreas protegidas e outras preocupações ambientais e de direitos humanos”.

É neste contexto que Letitia James reuniu argumentos para dizer que a empresa promove a sustentabilidade, mas apresenta “falsas alegações para aumentar as vendas”. O processo afirma que o frigorífico se comprometeu a reduzir as emissões de gases de efeito estufa até 2040, no entanto se vale de “práticas de marketing falsas e enganosas” por não apresentar um plano concreto para atingir a meta.

Lição para os pares

No dia 29 de fevereiro, quando a notícia ganhou proporção na imprensa nacional e internacional, o Google registrou aumento da procura sobre JBS e, nos Estados Unidos, os estados de Nebraska e Iowa foram os mais curiosos. Mesmo que as atenções estejam concentradas na JBS, Alcides Torres acredita que fica uma lição para toda a cadeia produtiva. De acordo com ele, o setor no Brasil deve ficar atento, porque o episódio nos Estados Unidos trouxe nitidez sobre o quanto o fator da sustentabilidade está em voga no Hemisfério Norte e pode influenciar os negócios. “A bronca não pode ser desconsiderada”, afirma. Além de toda a discussão reputacional, o consumidor brasileiro pode sentir as consequências. No raciocínio de Alcides Torres, a JBS vai ter que se defender, vai gastar dinheiro, a carne vai ficar mais cara.

“Do ponto de vista do pecuarista, a gente vê que a carne vai ficar mais cara, porque terão que contratar um escritório de advocacia nos Estados Unidos para fazer a defesa e isso é custo a ser repassado”, avalia o analista-chefe da SCOT Consultoria.