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La Niña chega ao fim e começa a contagem regressiva para o El Niño

Curto e fraco evento de La Niña termina e dá início a um breve período de neutralidade antes da instalação de um El Niño

Condições de La Niña chegam ao fim e Oceano Pacífico Equatorial ingressa em curto período de neutralidade antes de um provável evento de El Niño | Foto: NASA/Divulgação
Condições de La Niña chegam ao fim e Oceano Pacífico Equatorial ingressa em curto período de neutralidade antes de um provável evento de El Niño | Foto: NASA/Divulgação

O episódio de La Niña de 2025/2026 chegou ao fim após quatro a cinco meses de águas superficiais mais frias do que a média na faixa equatorial do Oceano Pacífico, de acordo com avaliação da MetSul Meteorologia.

Conforme a Administração Nacional de Oceanos e a Atmosfera, a agência de clima dos Estados Unidos, o Pacífico ainda se encontra sob condições de La Niña, mas acreditamos que a NOAA deve anunciar de forma iminente o fim da La Niña com a instalação de um quadro de neutralidade.

Foram 14 semanas seguidas em que o Pacífico Equatorial Centro-Leste, a denominada região Niño 3.4, usada para designar se há El Niño ou La Niña, apresentou anomalias de temperatura da superfície do mar em patamar de La Niña (-0,5ºC ou menos).

A anomalia de temperatura do mar mais negativa foi de -0,8ºC nas semanas de 12 e 19 de novembro assim como de 8 de janeiro, ou seja, foi um episódio bastante fraco e de curta duração, como já tinha sido o breve evento de 2024/2025.

Hoje, conforme o último boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central-Leste (região Niño 3.4) está em -0,3ºC.

O valor está na faixa de neutralidade (-0,5ºC a +0,5ºC). A última vez em que esta área do Oceano Pacífico Equatorial tinha apresentado anomalia no território de neutralidade havia sido na semana de 8 de outubro com -0,3ºC.

Uma semana com anomalias em patamar de neutralidade não seria suficiente, em tese, para decretar o fim de um evento de La Niña, mas considerando a presença de águas mais quentes abaixo da superfície emergindo para a superfície não enxergamos como o oceano possa retomar um processo de resfriamento.

No Pacifico Equatorial mais a Leste, perto das costas do Peru e do Equador, a anomalia de temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 1+2 foi de -0,2ºC na última semana.

Essa zona em especial do oceano costuma ter impacto na chuva do Rio Grande do Sul e quando se resfria nesta época do ano tende a reduzir a chuva no estado gaúcho com impactos na agricultura. Quando aquece, há uma tendência de aumento da chuva.

Fim da la niña trará aumento da chuva no sul? 

Com a notícia do fim da La Niña, a pergunta é inevitável: o fim da La Niña significa que a chuva vai aumentar e se tornar mais regular no Rio Grande do Sul e outras áreas do Cone Sul, como Argentina e Uruguai, que têm enfrentado déficit de precipitação em algumas regiões?

Não, não é tão simples assim. A atmosfera não funciona como virar uma chave, logo o término da La Niña não altera o padrão de chuva de imediato. Isso porque a atmosfera ainda responde por um certo tempo ao padrão que predominava, no caso nos últimos meses.

Assim, em curto e médio prazos, áreas do Centro da Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul que têm se ressentido da falta de chuva mais volumosa e regular tendem a seguir com irregularidade na precipitação. No caso do estado gaúcho, a região da Metade Sul é a que mais preocupa.

El Niño a caminho?

Só pode haver uma resposta para a fase seguinte ao evento de La Niña: um período sob estado de neutralidade. O Pacífico tem três fases possíveis que são La Niña, neutralidade e El Niño. Não se passa direto de Niña para Niño ou vice-versa sem um período de neutralidade, seja ele curto ou longo.

Muitas vezes neutralidade no sinal das águas do Pacífico é confundida com normalidade, até por meteorologistas, mas são situações distintas. Neutralidade não é normalidade. Quando o Pacífico Equatorial está neutro, podem ocorrer extremos comuns aos sinais tanto de El Niño como de La Niña.

Mais tarde, em meados do outono e no inverno e primavera pode se instalar um evento de El Niño, conforme múltiplas projeções de modelos de clima e oceânicos de longo prazo.

Já no fim do verão e no começo do outono deverá haver um acentuado aquecimento das águas nas costas do Peru e do Equador, podendo caracterizar um El Niño costeiro. Entre maio e junho, o aquecimento seria mais abrangente na faixa equatorial e poderia se instalar um El Niño clássico e global.

Modelos de clima NMME projeta acentuado aquecimento do Pacífico Equatorial entre o outono e o inverno com a instalação de um episódio de El Niño | Foto: NOAA/Divulgação

As projeções da Universidade de Columbia, de Nova York, indicam para o trimestre de março a maio 5% de probabilidade de La Niña, 88% de neutralidade e 7% de El Niño. No trimestre de abril a junho, 3% de probabilidade de La Niña, 72% de neutralidade e 25% de El Niño. No trimestre de maio a julho que encaminha o inverno de 2023, 6% de chance de La Niña, 58% de neutro e 36% de El Niño.

No trimestre de junho a agosto, o de inverno, 6% de probabilidade de La Niña, 46% de neutralidade e 48% de El Niño. No trimestre de julho a setembro, importante para a safra de inverno e o trigo, 7% de probabilidade de La Niña, 42% de neutralidade e 51% de El Niño. Já no trimestre de agosto a outubro, que cobre já dois terços da primavera climática, 11% de La Niña, 41% de neutralidade e 48% de probabilidade de El Niño. Por fim, no trimestre de setembro a novembro, o da primavera na climatologia, 13% de La Niña, 37% de neutro e 50% de El Niño.

Projeção probabílistica atual para o Oceano Pacífico | Foto: Universidade de Columbia/Divulgação

Os especialistas têm muita cautela com projeções para o Pacífico no fim do verão e no outono. Entre março e junho há o que se denomina de “barreira de previsibilidade” nas projeções para o Pacífico com confiabilidade baixa dos modelos. Agora, à medida que se sai de tal barreira, estas projeções se tornam mais confiáveis e os indicativos são de El Niño pela grande maioria das simulações.

O que é El Niño

Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quente do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña. Durante esta fase, a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño, normalmente, ocorrem a cada 3 a 5 anos.

El Niño, La Niña e neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima em todo o planeta e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Tais alterações no clima podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e ainda criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.

Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país se dão com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil enquanto La Niña traz mais chuva para a região.

A origem do nome “El Niño” data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal.

Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos, então, chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.

Fonte: Metsul