Qual a importância do bem-estar animal na produção de carne bovina?

Na rodada de entrevistas da semana, nossa convidada é Fernanda Macitelli, uma das nossas palestrantes do Encontro de Confinamento da Scot Consultoria 2020.

Fernanda possui graduação em Zootecnia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1999), mestrado em Zootecnia (2003), na área de nutrição de ruminantes e doutorado na área de comportamento e bem-estar animal (2015), ambos pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. A zootecnista trabalhou durante oito anos como gerente de um grupo de pecuária no estado de Mato Grosso e atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Sinop, no curso de Medicina Veterinária, onde é responsável pelas disciplinas de Fisiologia animal e Comportamento e Bem-estar animal.

Adicionalmente, Fernanda é pecuarista e desenvolve projetos de pesquisa e extensão nos seguintes temas: desempenho, produção, comportamento e bem-estar animal. No nosso bate-papo, Fernanda abordou sobre a importância do bem-estar animal na pecuária nacional e na produção de carne bovina. E essa conversa foi uma introdução para sua palestra que será realizada no ERC20 - Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria, que acontecerá de 14 a 17 de abril de 2020, em Ribeirão Preto-SP.

Scot Consultoria: Qual a importância do bem-estar animal na produção de carne bovina e qual é a sua visão sobre as práticas de bem-estar animal no Brasil?

Fernanda Macitelli: Primeiramente, o bem-estar animal precisa ser entendido pelos pecuaristas, técnicos e colaboradores das fazendas. Se perguntarmos a eles o que é bem-estar animal, muitos responderão que é algo utópico e romântico, outros acham que é usar bandeira no curral, fazer carinho nos animais e até mesmo ter dó deles. Quando na verdade bem-estar animal é uma ciência muito bem definida e comprovada.

Bem-estar animal é o estado do corpo do animal durante suas tentativas de se adaptar ao meio que ele está, ou seja, é o estado (físico e psíquico) do corpo do animal durante as mais diversas situações que o colocamos durante sua vida. Por exemplo: qual o bem-estar de uma vaca com escore corporal baixo e com acesso a pouca comida e água? Qual o bem-estar de um boi, em um caminhão muito cheio, parado no sol? Qual o bem-estar de um bezerro com miíase no umbigo e diarreia? Qual o bem-estar de um animal sofrendo agressões?

Assim que as pessoas entenderem a definição do bem-estar dos animais com certeza conseguirão enxergar sua importância na produção, já que um animal que não apresenta um bom estado físico e mental reduz sua produção, como também pode ter a qualidade do seu couro e de sua carne prejudicada.

No Brasil, as práticas de manejo que consideram o bem-estar dos animais têm aumentado, mas ainda existe um longo caminho para percorrer, afinal ainda temos questões culturais e religiosas que retardam seu avanço, assim como o investimento em capacitação da mão de obra é limitada.

Scot Consultoria: Em relação ao manejo de bovinos dentro da porteira, quais os erros mais comuns cometidos pelos pecuaristas?

Fernanda Macitelli: Depende muito da fase e do sistema de criação. No geral, o erro mais comum das pessoas é não conhecer o comportamento e as necessidades dos animais, ou pior ainda, ignorá-los.

Podemos citar: precárias condições de alimentação, problemas de saúde em que os animais não recebem tratamento, ambiente sem sombra e com muita lama ou poeira, agressão, mau manejo no curral, negligência nos primeiros cuidados com os recém-nascidos, entre outros.

Scot Consultoria: Você acredita que o pecuarista tem procurado empregar técnicas de manejo racional, treinar mão de obra, assim como reestruturar seus hábitos e tradições de anos?

Fernanda Macitelli: Apesar de lento, acredito que sim. O conhecimento hoje é mais acessível a todos, no entanto, a maioria ainda quer sempre testar o que a ciência já comprovou.

Para que as práticas que melhoram o bem-estar dos animais sejam empregadas na fazenda, as pessoas devem mudar a forma com que enxergam os animais. Eles não são objetos irracionais e insensíveis e sim seres vivos capazes de sentir e de interagir com o ambiente em geral.

Essa forma de pensar deve vir primeiramente dos gestores das fazendas, afinal serão eles quem cobrarão os funcionários e formarão uma equipe capaz de praticar qualquer técnica de manejo que melhore o bem-estar dos animais.

Scot Consultoria: Enfrentamos muita exigência em relação ao mercado, principalmente europeu, em relação às práticas de bem-estar animal, quais os desafios encontrados?

Fernanda Macitelli: Muitas vezes o bem-estar animal é usado como uma barreira não tarifária aos nossos produtos. Até pouco tempo atrás, alguns mercados importadores limitavam a avaliação do bem-estar dos animais no frigorífico, apenas. Entretanto, nos últimos anos, outros aspectos vêm sendo abordados por esses mercados, tais como: sistema de criação, emprego de técnicas que causem dor e são realizadas sem anestesia e analgesia, como a castração e a descorna, a ausência de leis que garantam o mínimo de bem-estar aos animais durante sua criação e transporte e a marcação a fogo desnecessária.

Resumidamente, muitos aspectos éticos da criação dos animais têm crescentemente sido questionados pelos consumidores de alguns mercados, ou seja, a forma com que tratamos nossos animais começou a fazer diferença.

Scot Consultoria: No confinamento, quais estratégias podem ser adotadas para afetar positivamente a capacidade de adaptação dos animais a esse novo ambiente? 

Fernanda Macitelli: Sempre que se fala em período de adaptação ao confinamento, a maioria das pessoas envolvidas nesse sistema de criação aborda a adaptação ao alimento como o único elemento dessa fase, quando na verdade, os bovinos precisam se adaptar as pessoas, aos barulhos, ao grupo, ao alimento, a presença constante de sol, etc.

Nós, do Grupo Etco, temos realizado pesquisas há mais de dez anos, avaliando manejos que possam melhorar o bem-estar dos animais no confinamento e podemos assegurar que os animais devem descansar depois do transporte, antes de serem processados para entrar no confinamento. Lotes  pequenos de animais ( de 80 a 100 cabeças), que já se conhecem, alocados em currais com mais espaço/animal e sombra, definitivamente apresentam melhor bem-estar animal e desempenho.

Scot Consultoria: O bem-estar animal hoje, é considerando custo ou investimento pelos nossos pecuaristas? Como o Brasil pode evoluir?

Fernanda Macitelli: A maioria dos pecuaristas ainda acha que é um custo, pois não possuem a mínima ideia do quanto deixam de ganhar por não se preocuparem com o bem-estar dos animais. Vou dar um exemplo, um animal que tem acesso a sombra no confinamento (desde que seja em ambiente quente) apresenta um ganho adicional médio de 100g/dia. Esse é um valor que o pecuarista não está perdendo e sim deixando de ganhar.

Um animal mantido por 90 dias ganhando 100g a mais por dia apresentará meia arroba a mais na carcaça. Dependendo da estrutura de sombra colocada, o investimento pode ser pago até mesmo no primeiro ano.

Outro exemplo pode ser a presença de abcessos e/ou reações vacinais e de hematomas nas carcaças. Hoje, em média no Brasil, metade das carcaças dos animais apresentam pelo menos um hematoma e um abcesso e/ou reação vacinal e perdem quase meio kg de carne cada.

Para que possamos evoluir temos que ser mais conscientes quanto as necessidades dos animais, do ambiente e das pessoas.

Fonte: Scot Consultoria

Redação Destaque Rural
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