Dados empresariais serão commodities cobiçadas no futuro

Maurício Lopes, ex-presidente da Embrapa, defende investimento em bases de dados, análise e modelagem avançada das informações geradas pela pesquisa agropecuária

Em um mundo digital impulsionado pela informação, no qual termos como big data, computação em nuvem, algoritmos, entre tantos outros, passaram a fazer parte do nosso dia a dia, bases de dados estão se tornando patrimônios valiosos nas organizações. Em palestra realizada na Embrapa Agroenergia (DF) no dia 14 de janeiro, o ex-presidente Maurício Lopes, afirmou que a instituição precisa investir de forma maciça na definição de métricas relevantes para o futuro da agricultura e na gestão estruturada dos dados, informações e conhecimento gerado por suas unidades de pesquisa. Essa é a base para que a Embrapa possa realizar análises mais sistêmicas, desenvolvendo modelagem avançada para tratamento de desafios globais e regionais relevantes para a agricultura brasileira.  Esse foi o tema da sua participação como cientista-visitante no Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA, sigla em inglês), em Laxemburgo, Áustria, entre os anos de 2018 e 2019.

Lopes, que atualmente é pesquisador da Embrapa Agroenergia, disse que a análise de sistemas e modelagem, com base em métricas e dados sólidos, é fundamental para ajudar a Empresa a definir estratégias de ação em diversas frentes como, por exemplo, a intensificação sustentável na agropecuária brasileira. E, nesse sentido, ele reforça a importância de estreitar a relação com o IIASA, a partir do Labex Europa (laboratório virtual da Embrapa naquele continente). O IIASA mantém cooperação com 23 países, entre eles o Brasil, mas a parceria com a Embrapa ainda não é muito efetiva. "A vasta experiência do Instituto em aproximar a ciência dos tomadores de decisão e responsáveis pela elaboração de políticas públicas pode ser muito importante para a pesquisa agropecuária no Brasil", constatou.

O instituto austríaco é considerado um dos maiores think tanks (instituições dedicadas a produzir e difundir conhecimentos e estratégias sobre assuntos importantes nas áreas de política, economia e ciência) do mundo e reúne um corpo de cientistas altamente qualificado, vários dos quais ganhadores de prêmios Nobel em diferentes áreas. A análise aplicada de sistemas e modelagem relacionados ao desenvolvimento sustentável é uma das linhas de frente na atuação do IIASA. A estratégia do instituto é sustentada em três pilares – biosfera, domínio socioinstitucional e domínio tecnológico e econômico – além de temas relacionados relevantes em âmbito global e regional, como: mudança de clima, evolução tecnológica, produção e consumo, comportamento, mudanças demográficas, instituições e governança, entre outros. "Esses temas são móveis na agenda do IIASA e adquirem mais ou menos importância de acordo com contexto geopolítico, país analisado e extensão dos desafios", esclareceu Lopes.

ZARC: exemplo brasileiro de modelagem avançada

O ex-presidente destacou o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), desenvolvido pela Embrapa e parceiros, como um exemplo de sucesso na área de análise de sistemas e modelagem avançada.  O modelo ZARC alcançou grande sucesso na gestão de risco e minimiza perdas agrícolas no Brasil, constituindo-se, portanto, em uma ferramenta crucial para o apoio à tomada de decisão, planejamento e execução de atividades agrícolas, e para suporte a políticas públicas focadas na busca de eficiência e segurança na agricultura. "Ou seja, o ZARC é um caso brasileiro de sucesso que exemplifica perfeitamente o propósito do IIASA", pontuou.

Lopes destacou também que os sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta (ILPF), utilizados em mais de 11 milhões de hectares com sucesso no Brasil, poderiam se beneficiar muito de uma estratégia sólida de análise de sistemas e modelagem. "O futuro da nossa agropecuária passa pela intensificação sustentável, e é imperativo que se definam métricas e se produzam dados sólidos que demonstrem para o mundo, de maneira inequívoca, que o Brasil está liderando a revolução da sustentabilidade no cinturão tropical", ressaltou. Para caminharmos mais rapidamente, é fundamental que a Embrapa amplie massa crítica em análise de sistemas e modelagem, incorporando mais profissionais nas áreas de matemática, estatística, ecologia, geografia, economia, entre outras. "A ênfase brasileira, através da Embrapa, em intensificação sustentável desperta enorme interesse nos pesquisadores do IIASA, especialmente pela real capacidade de aliarmos produção e sustentabilidade e de termos condições de qualificar e mensurar serviços ambientais e ecossistêmicos associados à agropecuária. Portanto, essa é uma área potencial para a consolidação de parcerias que abram espaço para uma entrada mais arrojada da Empresa no campo da análise de sistemas e da modelagem avançada", sugere o pesquisador.

Principais atividades como cientista-visitante

Ao longo da palestra, o ex-presidente destacou algumas das atividades que desenvolveu como cientista-visitante. Uma delas foi a colaboração no âmbito do Globiom (Global Biosphere Management Model), um modelo global de equilíbrio parcial da competição pelo uso da terra entre agricultura, silvicultura e bioenergia. Esse sistema computa o consumo e o comércio em 30 regiões do mundo, com foco em produção e uso da terra para atividades agrícolas, florestais e pecuárias, de forma espacialmente explícita. "O IIASA desenvolve uma versão regional desse modelo com múltiplos parceiros brasileiros (Globiom-Brazil), que funciona como uma potente ferramenta para avaliação dinâmica da agricultura frente à interação entre cenários biofísicos, econômicos e de governança", complementou.

O Globiom já tem sido utilizado para antecipar o impacto do Código Florestal na agricultura brasileira no horizonte de 2050, levando em conta múltiplos fatores, como crescente demanda por alimentos, mudanças climáticas, dentre outros. Segundo Lopes, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) têm participado ativamente como parceiros do IIASA nessa iniciativa. "Gostaria de colaborar para envolver mais a Embrapa. A capilaridade da Empresa no Brasil poderia facilitar as análises e enriquecer os resultados", pontuou.

O pesquisador participou também de um projeto internacional, envolvendo pesquisadores de 17 países, avaliando o impacto potencial da evolução tecnológica no alcance dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, trabalho inédito que deverá ser em breve publicado na revista Nature.  O pesquisador colaborou ainda com equipes dedicadas a modelar uma rede hidroviária para a América Latina (LAW, sigla em inglês), conectando as bacias hidrográficas do Prata, Amazonas e Orinoco, ligando Uruguai, Argentina, Paraguai, Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela. Um dos principais focos desse projeto é estimular a substituição de rodovias, que estimulam desmatamento e degradação ambiental na Amazônia, por hidrovias, que permitiriam a expansão econômica na região em bases sustentáveis - foco da colaboração do pesquisador no projeto. 

Participação no Plano Estratégico do IIASA

Outro ponto marcante da estadia do pesquisador foi a participação como coordenador do processo de formulação do Plano Estratégico do Instituto para os próximos dez anos (2021/2030). Ele e mais nove cientistas do IIASA se basearam na metodologia conhecida como "The Golden Circle" (círculo de ouro, em português), que orienta a formulação de estratégia com base na resposta às seguintes questões: "por que a instituição existe", "o que ela deve produzir" e "como ela deve operar", representadas pelas palavras Why, What e How, do inglês.

Lopes ressalta que entre as áreas mais instigantes da ciência atual estão a busca de melhor compreensão das mudanças de comportamento na sociedade, além do estudo de microbiomas - complexas comunidades microbianas que habitam e impactam o comportamento de plantas, animais e seres humanos. "É preciso manter um olhar mais holístico para os sistemas alimentares", comenta. O protagonismo do consumidor na busca por produtos mais saudáveis é que deve pautar a ciência e o mercado. "O Brasil e outros países exportadores de alimentos precisam estar preparados para enfrentar mudanças radicais nas práticas alimentares globais. Sistemas produtivos mais intensificados para economizar terra, água e reduzir impacto ambiental; insumos de base biológica; bem estar animal e maior diversidade de alimentos, que promovam saúde e o bem-estar dos consumidores é o que dominará o futuro", finaliza. 

Texto: Jornalista Fernanda Diniz - Embrapa Agroenergia

 

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