Intensidade do estro após protocolo de IATF tem influência na fertilidade das vacas

A detecção do estro é crucial para um programa reprodutivo bem-sucedido. Historicamente, a aceitação de monta é o padrão-ouro para a detecção visual do estro, mas a frequência deste comportamento (Lopez et al., 2004), bem como a proporção de vacas que o exibem (Dobson et al., 2008) tem diminuído ao longo das décadas.

Essa tendência foi notada particularmente em vacas leiteiras de alta produção (Lopez et al., 2004; Rivera et al., 2010). O aumento da atividade física é considerado uma característica secundária da expressão do estro em bovinos leiteiros e tem sido usada por monitores de atividade automatizados (MAA) para identificar confiavelmente vacas nesta situação (Roelofs et al., 2010).

Aumento na atividade física foi associado à melhora na taxa de gestação por Inseminação Artificial (IA) em vacas leiteiras (Madureira et al., 2015; Polsky et al., 2017; Burnett et al., 2018). A intensidade da expressão do estro, bem como a fertilidade, é afetada pelo Escore de Condição Corporal (ECC), paridade, estágio da lactação e saúde (Madureira et al., 2015; Burnett et al., 2017; Silper et al., 2017). No entanto, mesmo ao considerar esses fatores, a detecção e expressão do estro afetaram consistentemente a taxa de gestação por IA (López-Gatius et al., 2005; Madureira et al., 2015; Pereira et al., 2015; Burnett et al., 2017; Silper et al., 2017).

Protocolos de sincronização de ovulação têm sido usados como uma alternativa para alcançar os objetivos reprodutivos, pois eles podem aumentar as taxas gestação, visto que melhoram a submissão à IA sem depender da detecção de estro (Pursley et al., 1995; Chebel et al., 2010). Estudos recentes compararam diferentes combinações de protocolos de IATF e detecção de estro usando o MAA (Neves et al., 2012; Burnett et al., 2017; Denis-Robichaud et al., 2018b) e os resultados sugeriram que, em rebanhos norte-americanos, é possível manter uma eficiência reprodutiva comparável entre os programas baseados na detecção de estro e os dependem da IATF.


Fonte: banco de imagens MilkPoint.

Alguns estudos recentes, focados em eventos espontâneos de estro, também relataram o efeito da expressão do estro na fertilidade, mas não testaram este efeito nos protocolos IATF. Essa questão é particularmente importante em protocolos que usam estrogênio para induzir a ovulação, porque a maioria das vacas expressa estro antes da IA (Cerri et al., 2004; Pereira et al., 2015), em oposição a protocolos que usam um análogo do GnRH (Stevenson e Phatak, 2005).

A ocorrência de estro na IATF, observada pela aceitação de monta indicada por marcação com giz na base da cauda e ou adesivo, foi associada a uma redução na perda de gestação em vacas leiteiras (Pereira et al., 2014, 2015). Além disso, Pereira et al. (2015) relataram que a diminuição da perda de gestação em vacas que expressavam estro na IA ocorreu independentemente do diâmetro do folículo pré-ovulatório.

Davoodi et al. (2016) relataram que a ocorrência de estro na IA em bovinos de corte induziu alterações na expressão gênica no endométrio e no concepto, o que poderia estar relacionado com o sucesso no estabelecimento da gestação. Não está claro, no entanto, se a intensidade do estro – e não apenas a expressão dele – após esses protocolos de sincronização também tem relação com os resultados de fertilidade, como observado nos eventos espontâneos do estro.

Com isso, objetivou-se avaliar a associação entre a intensidade da expressão do estro, captada por um MAA, e os resultados relacionados à fertilidade, como taxa de ovulação, gestação por IA, perda de gestação e concentração de progesterona 7 dias após a IA. Além disso, avaliar se o ECC, a paridade, a produção de leite e as estruturas ovarianas estavam associadas à intensidade do estro e da fertilidade. A hipótese era que vacas com estro mais intenso teriam aumento na taxa de gestação por IA, redução na perda de gestação e nas falhas de ovulação e maior concentração de progesterona após a IA.

Vacas holandesas lactantes (n = 1.040) foram incluídas no estudo durante a primeira semana pós-parto, com a colocação de um MAA no membro posterior do animal. O rebanho experimental teve uma média de produção de leite equivalente a 11.438 kg/vaca, em 305 dias, com uma média de aproximadamente 1.700 vacas Holandesas em lactação. As vacas foram alojadas em freestall com ventilação cruzada em grupos de 300 animais. O freestall tinha piso de concreto e duas fileiras de camas de areia. A ordenha era realizada 3 vezes ao dia (aproximadamente às 05:00, 13:00 e 21:00 h). As vacas foram alimentadas três vezes por dia com dieta total. A dieta total foi formulada para atender ou exceder os requisitos de uma vaca Holandesa lactante produzindo 40 kg/d (NRC, 2001). Água e a dieta total estavam disponíveis para ingestão ad libitum.

As vacas foram monitoradas continuamente por um monitor de atividade automatizado (AfiPedometer Plus Tag, AfiMilk, Kibutz Afikim, Israel), do tipo pedômetro instalado na pata traseira de cada vaca no dia do primeiro parto e permaneceu nos animais durante todo o tempo no rebanho. Os dados da atividade (passos/h) foram registrados a cada 2 horas e recuperados 3 vezes ao dia (a cada 8 horas) por um scanner eletrônico na entrada da sala de ordenha.

Utilizando o MAA, um evento de estro foi determinado quando o aumento relativo (AR) da atividade física da vaca excedeu 100% da atividade base. A atividade física foi classificada como AR alto (≥300% AR), AR moderado (100-300% AR) ou sem estro (<100% AR).


Fonte: banco de imagens MilkPoint.

A ovulação foi sincronizada por um protocolo de IATF, baseado em estradiol e progesterona. O exame de ultrassom ovariano foi realizado em todas as vacas no D -11 (IATF = D0) e em um subconjunto de vacas no D 0 (n = 588) e D 7 (n = 819) para determinar a presença de corpo lúteo e folículos.

O escore de condição corporal (escala de 1 a 5) foi avaliado no D 0 e uma amostra de sangue foi coletada para mensurar a concentração de progesterona no D 7.

A produção de leite foi medida diariamente e foi calculado a média entre D -11 e D 0. A gestação foi diagnosticada aos 32 e 60 dias após a IATF e as perdas de gestação foram mensuradas.

O AR médio no estro foi de 328,3 ± 132,1%. Vacas com AR alto tiveram maior gestação por IA do que aquelas com AR moderado ou aquelas que não expressaram estro (35,1 vs. 27,3 vs. 6,2%). Ao incluir apenas vacas que ovularam com sucesso após IATF, aquelas que apresentaram forte intensidade de AR ainda tiveram maior taxa de gestação por IATF do que aquelas com intensidade moderada ou aquelas que não expressaram estro (45,1 vs. 34,8 vs. 6,2%).

Vacas que expressam maior AR na IATF apresentaram maiores taxas de ovulação em comparação a vacas com AR moderado e vacas que não expressaram estro (94,9 vs. 88,2 vs. 49,5%). Além disso, as perdas de gestação foram reduzidas nas vacas com maior AR, em comparação com vacas que expressam AR moderado (13,9 vs. 21,7%).

Vacas com maior AR no estro apresentaram maior probabilidade de apresentar corpo lúteo no início do protocolo e apresentaram maior concentração de progesterona 7 dias após a IATF. Vacas multíparas expressaram menor AR em comparação com vacas primíparas. Vacas com escore de condição corporal mais baixo tenderam a apresentar AR menor no estro.

Não foi observada correlação entre a expressão do estro e o diâmetro folicular pré-ovulatório. Também não foi observada correlação entre a produção de leite e o AR.

Conclui-se que a expressão mais intensa de estro na IATF melhora as taxas de ovulação e gestação e reduz a perda de gestação. Esses resultados fornecem evidências adicionais de que as medições da expressão do estro, mesmo em programas de IATF, podem ser um preditor confiável de fertilidade e podem ser usadas como uma ferramenta para auxiliar na tomada de decisão estratégias de reprodução na fazenda.

Vacas que tiveram mais intensa expressão de estro também apresentaram maior concentração circulante de progesterona 7 dias após a IATF, fornecendo evidências de melhora da função ovariana após esses eventos de estro de alta intensidade. A melhora na fertilidade com o aumento da intensidade de expressão do estro também foi associada à redução da perda de gestação, o que sustenta ainda mais a suspeita de que o ambiente do endométrio é significativamente afetado pelos mecanismos que causam maior intensidade do estro.

Texto baseado no artigo Intensity of estrus following an estradiol-progesterone-based ovulation synchronization protocol influences fertility outcomes, publicado no Journal Dairy Science, 102:3598–3608, por Madureira et al. (2019).

Fonte: MilkPoint

Redação Destaque Rural
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