Neospora: um inimigo silencioso

A neosporose bovina é uma enfermidade considerada uma das principais causadoras de aborto em ruminantes, ocasionando assim, falhas reprodutivas significativas. É causada por um parasita chamado Neospora caninum (N. caninum), que acomete bovinos, ovinos, caprinos, equinos, felinos, cervídeos e bubalinos.
Entretanto, estes não são caracterizados como hospedeiros definitivos, ou seja, o parasita não completa seu desenvolvimento nos animais citados, necessitando então de um hospedeiro completo para seu fechamento cíclico. Este hospedeiro definitivo são os canídeos, principalmente o cão doméstico, que é facilmente encontrado nas propriedades rurais com livre acesso ao rebanho.
Ciclo do protozoário
O ciclo do protozoário envolve três estágios infecciosos: bradizoítos, taquizoítos e os esporozoítos. Os taquizoítos e os bradizoítos são estágios intracelulares encontrados no hospedeiro intermediário, enquanto os esporozoítos se desenvolvem dentro dos oocistos no processo de esporulação.
Os taquizoítos são ovóides. redondos ou em forma de meia-lua. com o núcleo na posição central ou terminal e medem de 3 a 7/-Im x 1 a 5 ~Im,dependendo do estádio de crescimento e divisão e do plano de corte nos tecidos. Na Fig . 1 pode ser observado o cultivo do parasita apresentando a forma de taquizoíto.



Fig. 1. Taquizoítos de Neospora caninum obtidos em cultivo celular. Infecção da célula Vero por taquizoítas esféricos (a) e alongados (b) e com tamanhos diferentes. Taquizoítos unidos pela extremidade posterior (seta). Coloração de May-GrünwaldGiemsa. 1.000 X.
O estádio desse ovóide é o de multiplicação rápida, por endodiogenia, formando dois protozoários dentro de um taquizoíto. Na ausência de resposta imune do hospedeiro, os taquizoítos multiplicam-se continuamente, causando destruição progressiva das células e disseminação da infecção até a morte do hospedeiro.
Nos animais infectados, os taquizoítos encontram-se nas células nervosas, macrófagos , fibroblastos, células endoteliais, miócitos, células epiteliais dos túbulos renais e hepatócitos.
Nos bovinos, eles podem ser encontrados no cérebro, coração, fígado e pulmões de fetos, na placenta e na medula espinhal de bezerros. Os parasitas destroem as células nervosas do sistema nervoso central e dos nervos, alterando a condutividade das células afetadas.
Os taquizoítos não sobrevivem em solução de pepsina ácida, sugerindo que a maioria não sobreviveria na passagem pelo estômago, porém, existe relato de infecção em camundongos por via oral.
Os bradizoítos são organismos delgados de multiplicação lenta ou de latência, medem 6-8 x 1-2 pm, apresentam núcleo terminal a subterminal e são encontrados em grande número dentro do cisto tecidual. Os cistos representam uma infecção persistente, mantida sob controle pela resposta imune do hospedeiro.
Provavelmente com o início da resposta imune e a presença de outros fatores fisiológicos, os taquizoítos entram nas células e se diferenciam em bradizoítos, estabelecendo a infecção pela presença dos cistos. A formação dos cistos de N. caninum é pouco conhecida em qualquer dos hospedeiros relatados.
Os cistos de N. caninum geralmente são redondos ou ovais, podendo medir até 107 pm. A espessura da parede do cisto de N. caninum geralmente é de 1 a 2 pm, podendo medir até 4 pm, provavelmente dependendo do tempo de infecção.
O parasita encista-se no tecido nervoso (cérebro, medula espinhal, cerebelo, nervos), na retina e em músculo esquelético. Em fetos bovinos, são encontrados principalmente no cérebro. Nos bezerros com neosporose congênita, os cistos localizam-se no cérebro e na medula espinhal.
Os bradizoítos nos cistos são resistentes à solução de pepsina ácida e são infectantes por via oral para camundongos, gatos e cães, indicando que o carnivorismo é uma via de infecção de N. caninum.
Nas fezes recém-eliminadas de cães, os oocistos não esporulados medem 10 a 11µ de diâmetro, são esféricos a sub-esféricos, contêm um esporonte central e não são infectivos (Fig. 2). Os oocistos esporulam e tornam-se infectivos no ambiente após três dias, e contêm dois esporocistos (medindo cada um 8.4 x 6,1 11µ ), cada qual com quatro esporozoítas (7-8 x 2-3 11µ ) (Fig. 3). O núcleo dos esporozoítos apresenta localização central ou levemente posterior.




Fig. 2A. Oocisto de Neospora caninum. Oocisto não esporulado, com 11µ de diâmetro, contendo o esporonte, em fezes recentes de cão. Sem coloração. 400 X.
Fig. 2B. Oocisto de Neospora caninum. Oocisto esporulado, com 12µ de diâmetro, contendo dois esporocistos (seta), cada um com quatro esporozortas. A esporulação ocorreu após três dias. Sem coloração. 400 X
Experimentalmente, os cães não parecem ser bons hospedeiros definitivos de N. caninum, por causa do número reduzido de oocistos eliminados nas fezes e o período curto de tempo, sendo desconhecida a freqüência de eliminação durante a vida do cão.
Transmissão
Na literatura são citadas duas formas de transmissão, sendo uma pelo contato com oocistos esporulados no ambiente, fômites, alimentos e restos fetais. Outra forma de transmissão seria a vertical, ou seja, transplacentária, onde o animal ao nascer, já é hospedeiro do parasita, provocando perdas zootécnicas e falhas reprodutivas.
A transmissão vertical então é descrita como uma característica da doença que torna difícil o controle no rebanho. Alguns fatores como imunidade da fêmea, e período gestacional, ocasionalmente podem interferir no grau de infecção fetal.
Os bezerros persistentemente infectados são muito importantes na epidemiologia da enfermidade e constituem-se nos principais responsáveis pela manutenção do agente em um rebanho. Esses animais são clinicamente normais, são soropositivos e abrigam o parasita encistado em vários tecidos, sendo considerados portadores do agente. A reativação da infecção em fêmeas prenhes persistentemente infectadas, provavelmente devido à imunossupressão fisiológica da gestação, pode resultar em transmissão transplacentária do agente ao feto.

O aborto é a consequência reprodutiva mais evidente da neosporose em fêmeas prenhas e ocorre mais frequentemente no segundo trimestre de gestação. Porém, é importante ressaltar que nem sempre está presente e em alguns casos pode ocorrer apenas na primeira gestação, o que torna ainda menos visível a presença do parasita.



Fig. 3. Ciclo de vida parasitário de Neospora caninum.

Diagnóstico
O diagnóstico depende de uma combinação entre o histórico do rebanho, sinais clínicos e dados de laboratório. O quadro clínico sugestivo de neosporose é a presença de sinais neurológicos e de polimiosite em bovinos jovens. Em bovinos adultos, a ocorrência de abortos e o nascimento de bezerros natimortos são sinais sugestivos de infecção por N. caninum.
Os casos assintomáticos em bovinos e os sinais inespecíficos da neosporose dificultam o diagnóstico clínico da doença. Consequentemente, o diagnóstico laboratorial é imprescindível para confirmar uma infecção por N. caninum.
Para diagnóstico da neosporose em fetos abortados, é necessário a coleta de amostras específicas, como restos placentários, líquidos fetais, cérebro, coração e fígado. Já em animais adultos é necessária uma pesquisa de anticorpos no sangue, leite, colostro, fluidos vaginais e saliva. Testes sorológicos são comumente usados como ensaio de imunoabsorção enzimática (ELISA), reação da polimerase em cadeia (PCR) e exame de antiglobulina direto (NAT) em amostras de soro.
Ao conhecer a doença em seu rebanho, assim como várias outras, é necessário iniciar medidas de controle de infecção para que os animais presentes não venham a contribuir para a disseminação da doença. Se possível, o descarte voluntário de animais que possuem a doença é visto como uma solução plausível a longo prazo para controle.
Controle
O controle da doença consiste primariamente na identificação dos animais que possuem o parasita, para a quebra do ciclo, afim de Para evitar que ele seja transmitido, controle de canídeos na propriedade, de receptoras, controle sanitário de venda e compra e medidas higiênicas, são o caminho para o controlar a neosporose.
A recomendação para animais soropositivos é o descarte de modo gradativo, evitando prejuízos econômicos na produção. Eles e seus descendentes não devem ser mantidos na reprodução, para evitar a transmissão vertical do parasita no rebanho. Dependendo da prevalência da doença no rebanho, essa prática pode ser economicamente inviável.
Prevenir a contaminação de cães. pela remoção de tecidos infectados corno placentas, fetos e carcaças de bezerros que serviriam de fonte de infecção e evitar o acesso dos cães à carne crua constituem estratégias importantes para o controle da transmissão horizontal.
É preciso também evitar a contaminação de bovinos por oocistos eliminados pelos cães, reduzindo as possibilidades de contato dos bovinos com as fezescaninos. Isto é possível diminuindo o número de cães convivendo no rebanho protegendo locais de armazenamento de alimento e de água, removendo as fezes deles de locais como os cochos e bebedouros.
Deve-se também evitar o contato das vacas com fetos e placentas, para impedir a placentofagia. Em rebanhos leiteiros isto poderia ser feito com a separação do s animais no momento do parto.
Atualmente não existem vacinas disponíveis no mercado, o que seria uma ótima alternativa para o controle. Existem estudos que visam o desenvolvimento da mesma, e, uma vacina comercial existiu no mercado recente, porém foi retirada devido à sua baixa eficácia em ensaios no campo.

Fontes consultadas:
Neosporose bovina, um inimigo oculto da pecuária leiteira (https://www.milkpoint.com.br/colunas/grupo-apoiar/neosporose-bovina-um-inimigo-oculto-da-pecuaria-leiteira-215383/)
Anticorpos anti-Neospora caninum em bovinos, ovinos e bubalinos no Estado do Rio Grande do Sul. Cienc. Rural [online]. 2006, vol.36, n.6, pp.1948-1951.
Diagnóstico e Controle da Neosporose em Bovinos, ANDREOTTI, R.; LOCATELLI-DITTRICH, R; SOCCOL, V. T.; PAIVA, F. (https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/324070/diagnostico-e-controle-da-neosporose-em-bovinos)

Fonte: MilkPoint

Redação Destaque Rural
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