Amochamento e descorna de bezerros leiteiros

Por Carla Maris Machado Bittar e Mariana Gavanski Coelho*
A retirada do chifre dos bovinos é frequente em todo o mundo e tem por justificativa evitar a ocorrência de lesões e acidentes entre os animais e aos tratadores. Além disso, permitir que maior número de animais tenha acesso ao comedouro, facilidade de manejo e transporte e diminuição da competição e dos comportamentos de dominância.
Essa remoção pode ser realizada através do amochamento ou da descorna. O amochamento consiste na destruição das células queratogênicas que ainda não se fundiram ao crânio e, portanto, é realizado em animais com até dois meses de idade; após essa idade o procedimento é cirúrgico, chamado de descorna que tem por objetivo amputar o corno já formado e fundido (Figura 1).

Figura 1 – Estrutura anatômica do botão queratogênico que dará origem ao corno e corno já formado e fundido ao crânio em bovinos. Fonte: Adaptado de Cardoso (2014).
 
Independente da prática, ambas causam um forte estímulo mecânico, químico ou térmico devido à lesão tecidual aplicada de forma aguda e com alta intensidade. Segundo uma pesquisa realizada com veterinários neozelandeses, o amochamento ou descorna, juntamente com a castração, são considerados os procedimentos mais dolorosos e que acarretam maior prejuízo ao desempenho dos bezerros (Laven et al., 2009). E por esse motivo, a mitigação da dor se torna essencial. Assim, sempre que possível, a experiência da dor não deve ser sentida ou deve ser minimizada, o que inclui o uso de fármacos assim como métodos adequados de contenção do animal são contidos a fim de assegurar o bem-estar.
Os animais de produção não são propensos a demonstrar reação a um estímulo doloroso como parte de sua estratégia evolutiva, já que são presas e, portanto é impossível compreender o que estão realmente vivenciando através de sua linguagem (Currah et al., 2009). Por esse motivo, a fim de evitar que o sofrimento passe despercebido é necessário instituir o “principio da analogia”, de que a dor vivenciada por seres humanos seja da mesma forma dolorosa para os animais.
Porém, frequentemente práticas são realizadas sem o apoio de qualquer tipo de analgesia ou anestesia, com base em argumentos econômicos, de falta de mão-de-obra, procedimento doloroso de curta duração ou status subdesenvolvido do sistema neurológico dos animais. Contudo, a implementação de legislações por pressão da sociedade e consumidores com o intuito de assegurar o bem-estar dos animais, tem mudado esse cenário em diversos países.
A intensidade e a duração do estímulo doloroso são de grande importância na determinação do medicamento a ser utilizado no tratamento da dor, assim como seu mecanismo de ação. Apesar do maior número de analgésicos disponíveis para uso veterinário, além do maior interesse e preocupação na mitigação da dor, o quanto disso se converte no controle efetivo da dor ainda é incerto.
Anestesia
A anestesia geral ou sedação apenas é obrigatória no procedimento de descorna cirúrgica e tem por objetivo auxiliar na contenção do bovino, porém não elimina o desconforto induzido pela dor e por isso seu uso deve estar associado a anestesia local. O uso da anestesia local se tornou obrigatória pela Resolução n°877, de 15 de fevereiro de 2008, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) em ambos procedimentos, e deve ser aplicada próximo ao nervo cornual (Figura 2) para correta sensibilização. A lidocaína (2 ou 5%) é o anestésico local mais utilizado em ruminantes no pré-operatório.
 
Figura 2- Representação da localização do nervo cornual e sua insensibilização com aplicação de anestesia local.

Fonte: Cardoso (2014); Farmers Weekly (2012).
 
A mensuração da dor nos animais, geralmente é realizada através da concentração de cortisol plasmático circulante e salivar. E, portanto em trabalhos desenvolvidos para avaliar o efeito da aplicação de anestesia local, e a combinação com anti-inflamatórios (AINES) em procedimentos de amochamento, obtiveram respostas de diminuição da concentração de cortisol durante a ação do anestésico local, entretanto a concentração do hormônio aumentava a medida que o fármaco era dissipado, tornando necessário a associação de AINES (Milligan et al., 2004; Vickers et al, 2005).
Analgesia
Drogas anti-inflamatórias são amplamente utilizadas e imprescindíveis na maioria desse tipo de prática realizadas rotineiramente nos animais, visando aliviar a condição inflamatória, sendo a principal ferramenta no tratamento da dor. Em adição à analgesia, são conhecidos por seus efeitos anti-inflamatórios e antipiréticos.
Estudos têm demonstrado os benefícios da analgesia preemptiva (aplicação pré-operatória que irá auxiliar na dor e desconforto pós-operatório) sendo essa uma das maiores inovações na mitigação da dor em bovinos e ovinos. Os fármacos mais efetivos incluem o flunexin-meglumine, cetoprofeno, fenilbutazona e carprofeno, que é um fármaco específico.
Animais que recebem AINE antes da descorna em associação ao anestésico tendem a demonstrar melhora na frequência dos comportamentos de dor e maior ganho de peso nos dias subsequentes, demonstrando a eficiência desses fármacos no combate à dor pós amochamento, seja por ferro quente ou pasta cáustica.
Práticas de amochamento
O procedimento de amochamento tanto por ferro quente/elétrico ou através de cauterização química (uso de pastas cáusticas) deve ser realizado em animais com idade inferior a dois meses, pois nesse período o botão cornual que dará origem ao chifre ainda está flutuante na pele, o que facilita a prática de remoção e o processo de cicatrização, diminuindo o trauma ao qual o animal é submetido e evitando complicações pós-operatórias como as sinusites.
A cauterização química com uso de pasta cáustica causa dor intensa com elevados níveis de cortisol por até 6 horas, contudo causa dor por menos tempo quando comparado ao uso de ferro quente.
 
Figura 3- Aplicação de pasta cáustica para amochamento.

Fonte: Ag Animal Health, (2010).
 
A pasta cáustica deve ser aplicada apenas no botão cornual com prévia tosa dos pelos. O uso de quantidade excessiva pode fazer com que o produto escorra pela pele ocasionando lesões, inclusive nos olhos. Outra forma de prevenir as lesões na pele é criar um circulo de contenção com pomada à base de bálsamo (Figura 3), evitando que a pasta cáustica escorra para área indesejada.
Algumas pesquisas apontam que o amochamento com ferro quente tende a elevar em até cinco vezes a resposta de dor, além de apresentar cicatrização mais lenta e, portanto que demanda maiores cuidados. No entanto, com o uso de anestesias adequadas, as concentrações de cortisol tendem a se manter normais.

Para o uso de ferro quente, o pelo também deve ser previamente retirado do local, e quando o ferro estiver candente, deve ser pressionado sobre o botão córneo, evitando utilizar força excessiva. O equipamento deve ser movimentado circularmente, de forma cuidadosa para que a pele não seja queimada, e então o botão será extraído. A queimadura não deve ser aprofundada para que não atinja estruturas do crânio (Figura 4). Após o procedimento pomada cicatrizante e repelente deve ser utilizada para facilitar o processo de cicatrização.
 
Figura 4- Amochamento por ferro quente.

Fonte: Farmers Weekly (2012).


Conclusão
Independente da descorna ser um procedimento rápido e que soluciona diversos problemas associados ao manejo, a dor provocada pela prática é significativa e causa diversos prejuízos ao desenvolvimento do animal. Práticas para redução da dor, como uso de anestésicos, analgésicos e anti-inflamatórios  devem ser adotadas a fim de garantir o bem-estar das bezerras e manter o desempenho animal.
*A Dra. Carla Maris Machado Bittar é instrutora do EducaPoint, tendo ministrado três cursos.
Fonte: MilkPoint

Redação Destaque Rural
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