Como as ordenhas robotizadas afetam a nutrição das vacas leiteiras?

Por Marina A. Camargo Danés e Ana Carolina Oliveira Ribeiro

Os sistemas automatizados de ordenha, conhecidos também como ordenhas robôs, estão conquistando espaço no mundo, com cerca de 40.000 máquinas em operação. Em alguns lugares isso se deve à limitação de mão de obra, em outros a uma preocupação com bem-estar animal, ou ainda a uma melhora no estilo de vida em propriedades familiares. No Brasil, estima-se que mais de 160 equipamentos de ordenha robô já estejam vendidos, com mais de 70 em funcionamento. Apesar de ser ainda um número pequeno, o interesse é crescente.

Dentre as vantagens da ordenha robotizada, destacam-se a flexibilização (e talvez redução) de mão de obra, maior produção por vaca/dia decorrente do maior número de ordenhas e maior coleta de informações sobre os animais e a produção. No entanto, a troca de uma ordenha convencional para uma robotizada traz mudanças drásticas em todo manejo da propriedade leiteira. As vacas precisam se acostumar com o novo sistema, o que exige paciência e treinamento dos operadores. A limpeza de currais não tem mais um horário definido em que toda a estrutura está vazia. O trato não coincide mais com a hora que as vacas retornam da ordenha. Essas mudanças exigem também uma adaptação das pessoas que trabalham na propriedade.

Além do manejo, a formulação de dietas muda completamente, já que com a ordenha robô, as vacas recebem parte do concentrado durante a ordenha. Desta forma, a dieta oferecida no cocho deixa de ser uma dieta completa (TMR) e passa a ser uma dieta parcial (PMR). Muitos fatores vão interferir nas tomadas de decisão do nutricionista nestes cenários. Um artigo publicado no Journal of Dairy Science, em 2017, descreveu os resultados de uma revisão de literatura sobre estratégias alimentares em sistemas de ordenha robotizada para maximizar o número de visitas ao robô e atender às exigências nutricionais dos animais de forma mais personalizada (Bach e Cabrera, 2017).

Os autores discutem que o plano nutricional em sistemas de ordenha robô deve levar em conta aspectos comportamentais dos animais e aspectos nutricionais. O comportamento animal é uma variável crucial já que a ordenha é voluntária, ou seja, depende de a vaca ir sozinha até o robô. O alimento talvez seja o fator que mais tem potencial de influenciar o comportamento das vacas e por isso é utilizado como forma de fazer com que as vacas visitem os robôs. A ordenha robotizada pode ser montada na fazenda de duas formas, a de fluxo livre e a de fluxo guiado.

No fluxo livre, as vacas têm total liberdade para visitarem o robô quando quiserem e têm livre acesso ao cocho e às camas. Neste cenário, o que atrai as vacas para o robô é o concentrado que é fornecido durante a ordenha. A quantidade oferecida precisa ser maior e a dieta fornecida no cocho (PMR) passa a atender uma porção menor da exigência dos animais. No entanto, se as vacas visitarem a ordenha menos vezes do que o planejado, o aporte de nutrientes fica comprometido. Além disso, algumas vacas inevitavelmente vão fazer menos visitas do que o necessário, o que vai exigir mão de obra para tocar essas vacas diariamente.

Já em estábulos com fluxo guiado, a ordenha está posicionada entre a comida e o local de descanso das vacas. Dessa forma, para ir de um local para ou outro, a vaca obrigatoriamente deve passar por um portão que pode a direcionar para a ordenha ou liberar sua passagem. Neste formato, o concentrado oferecido durante a ordenha não tem mais a função de atrair a vaca e a quantidade pode ser menor. O que atrai os animais a se movimentarem pelo estábulo, neste caso, é a PMR oferecida no cocho. Como a quantidade de concentrado na ordenha é menor, a PMR é formulada para atender quase totalmente a exigência da média do lote.

Na revisão de Bach e Cabrera, os autores afirmam que o fluxo guiado aumenta a frequência de ordenhas e reduz a variação no intervalo entre ordenhas, mas pode reduzir o tempo que as vacas passam no cocho e comprometer o consumo de alimentos. Um levantamento citado pelos autores comparou dados de campo e concluiu que as vacas produziram mais leite em sistema de fluxo livre. No entanto, ele exige um monitoramento mais intensivo das vacas que não estão indo na ordenha o número suficiente de vezes e precisam ser tocadas.

Já do ponto de vista nutricional, a possibilidade de alimentar vacas individualmente abre caminho potencial para dietas personalizadas que atendam exatamente as exigências de cada animal. A oferta de concentrado pode ser programada de acordo com produção de leite e dias em lactação, possibilitando, por exemplo, uma dieta mais segura para vacas recém-paridas e uma mais “quente” para vacas em pico de lactação. Caso o alimentador do robô possibilite a adição de mais de um alimento, é possível fazer combinações para ajustar ainda mais a oferta de nutrientes.

No entanto, existem algumas restrições que podem limitar o benefício dessa alimentação personalizada. A quantidade de concentrado oferecida em cada ordenha tem um tempo limitado para ser consumida. Em média, as vacas passam 7 minutos dentro do robô em cada ordenha. A taxa de ingestão média do concentrado peletizado é de 400 g/min, enquanto a do farelado é de 250 g/min. Isso significa que uma vaca tem tempo de ingerir, no máximo, 2,8 kg de concentrado peletizado e 1,75 kg de farelado por ordenha. Se considerarmos um número de visitas médias por dia de 2,5 por vaca, a quantidade de concentrado oferecida no robô é limitada a 4,4 – 7 kg/dia.

A composição do concentrado, dureza do pellet e uso de flavorizantes são fatores que afetam a taxa de ingestão e, portanto, o limite máximo de oferta por dia. Além disso, a composição nutricional do concentrado é importante para minimizar flutuações indesejadas na fermentação ruminal e problemas decorrentes de acidose ruminal. A quantidade de concentrado oferecida no robô também influencia o consumo de PMR pelas vacas. O pesquisador canadense Trevor DeVries, em sua palestra no Formuleite 2018, apresentou informações interessantes sobre alimentação em sistemas de ordenha robô. Segundo ele, experimentos que compararam alta e baixa oferta de concentrado no robô observaram que as vacas podem substituir de 0,7 a 1,6 kg de consumo de PMR para cada kg adicional de concentrado. Isso sem dúvida afeta a formulação da dieta e a oferta de nutrientes e precisa ser considerado.

Dessa forma, as decisões que o nutricionista precisa tomar em um sistema robotizado de ordenha são bem diferentes do que em sistemas convencionais. Em sistemas de fluxo livre, quantidade e composição desse concentrado, forma de apresentação (farelado vs pellets), granulometria, uso de flavorizantes tornam-se decisões que vão influenciar não só a produção de leite, mas o número de visitas das vacas ao sistema e a saúde ruminal. A relação entre quantidade de concentrado e visitas à ordenha não é tão direta quanto possa parecer. Alguns estudos citados na revisão de Bach e Cabrera não observaram diferenças no número de visitas ao robô para vacas recebendo doses altas (7 - 8 kg/d) ou baixas (3 – 4 kg/d) de concentrado.

Já em sistemas de fluxo guiado, a PMR passa a ser o maior atrativo para movimentar as vacas e o concentrado no robô, uma ferramenta de personalizar a dieta das vacas. Empurrar a comida no cocho já é prática comum nas fazendas leiteiras e estimula as vacas a se levantarem e irem comer. No sistema de robô com fluxo guiado, aumentar o número de tratos ou empurrar a comida mais vezes pode fazer a diferença no movimento das vacas e nas visitas ao robô. Isso na verdade é importante para qualquer sistema de fluxo. Dr. DeVries apresentou dados de um levantamento de 33 fazendas com ordenhas robô no Meio-Oeste dos EUA (todas com fluxo livre) que observou uma diferença de 4,9 kg de leite por vaca/dia a mais para fazendas que utilizavam um robô para empurrar comida, comparado às fazendas que empurravam manualmente.

Outro ponto levantado pelos autores da revisão é a inclusão ou não de minerais e vitaminas no concentrado oferecido na ordenha. Normalmente, esses componentes são considerados de baixa aceitabilidade pelas vacas, então são oferecidos na PMR. No entanto, à medida que a produção de leite aumenta e a oferta de concentrado na ordenha também aumenta, a quantidade de minerais que a vaca consumirá na PMR pode ser limitada, porque o aumento do consumo é impulsionado principalmente por um aumento na ingestão de concentrado e não de PMR.

A oportunidade de oferecer quantidades personalizadas de concentrado para cada vaca e a utilização do alimento como atrativo para ordenha são desafios novos no trabalho dos nutricionistas. Até o momento, todos os dados de pesquisa que podem nos orientar na tomada de decisões foram gerados na Europa e América do Norte, onde a maioria dos sistemas é de fluxo livre.

No Brasil, a quase totalidade dos robôs já comercializados são para sistema de fluxo guiado. Nossa realidade de ingredientes, mão de obra e tecnologia também é um pouco diferente. Por isso, gostaria de aproveitar este artigo para iniciar uma discussão entre os nutricionistas e produtores de leite que já estão trabalhando com ordenhas robotizadas sobre as principais dúvidas e problemas relacionados à nutrição desses rebanhos.

Usem os comentários para compartilharem suas experiências e desafios. Em 2020, vamos inaugurar na Universidade Federal de Lavras nosso novo centro de pesquisa para produção de leite que contará com uma ordenha robô. Essa discussão deve nos ajudar a direcionar os experimentos que serão realizados em nosso centro de pesquisa e o tipo de informação que precisa ser gerada para promover avanços nesses sistemas de produção.

Referências bibliográficas

Bach, A. e Cabrera, V. 2017. Robotic milking: Feeding strategies and economic returns. Journal of Dairy Science, v. 100, p. 7720-7728.

DeVries, T. 2018. Nutritional Management for robotic milking systems. V Simpósio Internacional em Formulação de Dietas para Gado de Leite – Formuleite. Goiânia, GO.

Fonte: MilPoint

Redação Destaque Rural
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