Apesar da La Niña, janeiro teve chuvas superiores à média no RS

Janeiro de 2021 teve precipitação acumulada superior a 100 milímetros, na maioria das regiões do Rio Grande do Sul. A região da Campanha foi a que registrou os maiores volumes, entre 200 e 250 mm (Figura 1A). Os altos volumes ocorridos de chuva foram ótimos para melhorar o nível dos reservatórios e dos rios, assim como a frequência de chuvas (Figura 2), satisfatória para o adequado desenvolvimento das culturas de sequeiro. Com os elevados volumes ocorridos, a anomalia da precipitação ficou positiva na maioria das regiões, onde a Campanha teve entre 100 e 200 mm acima do volume normal para o mês (Figura 1B).

1   Precip jan 2021Mapa da precipitação acumulada e da anomalia da precipitação durante o mês de janeiro de 2021

Figura 1) Mapa da precipitação acumulada (A) e da anomalia da precipitação (B) durante o mês de janeiro de 2021 em relação à média climatológica no RS. As escalas de cores indicam, em milímetros, o acumulado de precipitação (A) e a anomalia de precipitação (B), onde valores positivos (azul) indicam precipitação acima da média e valores negativos (laranja-vermelho) indicam precipitação abaixo da média. Fonte de dados: CPTEC/INMET.

 

 A média mensal das temperaturas mínima e máxima ficou dentro do normal em janeiro. Apenas na região metropolitana de Porto Alegre, ambas ficaram um pouco acima do normal. Na Figura 2, tem-se as temperaturas diárias, máximas e mínimas, que oscilaram muito próximas dos valores normais para o mês de janeiro.

2   prec e temp diárias jan2021Temperaturas e suas respectivas normais climatológicas e precipitação pluvial diária referentes ao mês de janeiro de 2021

Figura 2) Temperatura máxima e mínima diária (°C), suas respectivas normais climatológicas (NC) (°C) e precipitação pluvial diária (mm) referentes a janeiro de 2021, em alguns municípios da Metade Sul do RS, que representam quatro das regiões arrozeiras do RS. Fonte de dados: INMET.

 

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas

O relatório da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), divulgado no dia 11 de fevereiro, aponta que a La Niña deve se manter no trimestre Mar-Abr-Mai de 2021, com 62% de probabilidade. Já a transição entre a La Niña e a fase Neutra tem 60% de chance de ocorrer no trimestre Abr-Mai-Jun. Ainda segundo a NOAA, o sistema acoplado oceano-atmosfera esteve consistente com a fase fria do ENOS (La Niña), indicando sua continuação.

Pelo mapa da anomalia da Temperatura da Superfície do Mar (TSM), observa-se que as águas do Oceano Pacífico Equatorial se mantiveram mais frias que o normal durante janeiro (Figura 3). Porém, a intensidade das anomalias negativas diminuiu, pois a La Niña está em processo de enfraquecimento. Chama atenção que grande área do Oceano Pacífico Equatorial, entre a costa da América do Sul e o centro do Oceano, esteve com a temperatura das águas quase neutras, indicando que a La Niña Clássica esteve desconfigurada, e isso, aliado à um Oceano Atlântico Sul aquecido, pode ter favorecido a maior passagem de sistemas frontais durante janeiro no RS. As anomalias nas quatro regiões do Pacífico foram de: -0,8 °C, -0,7 °C, -1,1 °C e -1,2 °C, respectivamente nas regiões do Niño1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4. O valor do último trimestre (Nov-Dez-Jan) foi de -1,2 °C.  Embora a La Niña esteja enfraquecendo, vale ressaltar que, ainda assim, as chuvas poderão ser irregulares, com períodos secos, e precipitações ocorrendo de forma mal distribuída.

A temperatura das águas do Oceano Atlântico Sul continuou apresentando anomalias positivas em janeiro (Figura 3), e deverá continuar assim por todo o fevereiro. Essas águas com temperaturas mais elevadas são importantes, pois fornecem maior quantidade de calor e umidade à região, favorecendo a ocorrência de chuvas no RS.

3   TSM jan 2021Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de janeiro de 2021

Figura 3) Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de janeiro de 2021. O retângulo central na imagem mostra a região do Niño3.4, a qual os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (índice que define eventos de El Niño e La Niña). Já o retângulo menor mostra a região Niño 1+2, que modula a qualidade, ou seja, a regularidade das chuvas no RS. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.

 

Os gráficos da anomalia das águas subsuperficiais (Figura 4) mostram que ainda há uma grande bolha de águas com anomalias negativas da temperatura, indicando que o resfriamento em superfície ainda permanecerá por algum tempo. A outra grande bolha, a de anomalias positivas, tem se apresentado com posição estável, tendo aumentado apenas a intensidade do aquecimento. Na imagem do dia 02/02 é possível ver pequenas bolhas com anomalias positivas à leste (próximo da costa da América do Sul), perto da superfície. São elas que estão favorecendo a diminuição do resfriamento em superfície, na região Niño1+2.

4   Temp  Subsuperficial evolução 2020Anomalia da temperatura subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico em relação à profundidade

Figura 4) Anomalia da temperatura subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico (°C) em relação à profundidade (de 0 a 300 m). Pêntadas significam média de cinco dias consecutivos. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.

 

Precipitação no trimestre março, abril e maio de 2021

Conforme colocado no último boletim da previsão climática, fevereiro era para ser de chuvas abaixo da média em todas as regiões do RS. Porém, a primeira quinzena do mês teve maior frequência de chuvas, e toda a Metade Sul já está com anomalias positivas na precipitação. Ou seja, o modelo errou a previsão para este mês. Contudo, para o próximo trimestre (Mar-Abr-Mai) os modelos continuam indicando que o volume de precipitação ficará abaixo da média.

O modelo do IRI (International Research Institute for Climate Society) aponta para um trimestre (Mar-Abr-Mai) com probabilidade de 40-45% das chuvas ficarem abaixo da média. O modelo do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) mostra que o mês de março deverá ser de chuvas abaixo da média em toda a Metade Sul do RS, com exceção da Zona Sul e Planície Costeira Interna, que deverão registrar chuvas acima do normal. No entanto, não significa que haverá ausência de chuvas, pois a previsão diária da precipitação indica que haverá ao menos três eventos de chuva no Estado. Para abril, o modelo do INMET indica chuvas dentro do normal na Zona Sul e abaixo do normal para as demais regiões, com o total de chuva prevista variando entre 100 e 160 mm. Em maio, o modelo prevê chuvas entre normal e abaixo do normal para as regiões da Zona Sul e Planícies Costeira Interna e Externa. Já para as demais regiões, prevê chuvas abaixo da média climatológica. O modelo da NOAA, CFSv2, discorda das previsões do INMET apenas para maio, pois prevê chuva acima do normal na Metade Sul do RS.

Embora a La Niña esteja perdendo força, a atmosfera ainda demora um tempo para responder à essa mudança. Com isso, chuvas irregulares ainda deverão ocorrer, assim como períodos mais secos prolongados, intercalados com períodos chuvosos. Atenção, também, para as temperaturas, que poderão ser amenas após a passagem de sistemas frontais, podendo vir a ser um risco para aquelas lavouras de arroz semeadas tardiamente e que estão em período crítico para temperaturas mais baixas. Não se descarta também, o risco para queda de granizo, visto que se tem observado fortes temporais localizados nas últimas semanas.

Jossana Ceolin Cera é meteorologista, doutora em Engenharia Agrícola pela UFSM e consultora do Irga.

Larissa Schäfer
Publicado por Larissa Schäfer

Formada em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo (UPF).

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