O novo ''corona voucher'' terá impactos no setor lácteo?

O “auxílio emergencial”, que ficou conhecido como “corona voucher” e foi pago pelo governo federal brasileiro a partir de abril (logo depois do início da pandemia), até dezembro, foi decisivo para manutenção de patamares mínimos de funcionamento da economia brasileira.

No leite, principalmente durante o segundo semestre do ano passado, causou forte incremento de consumo e de preços. Foram cerca de R$ 231 bilhões injetados “na veia” do consumidor brasileiro (notadamente das fatias mais pobres da população brasileira), e que associados a outros fatores coadjuvantes (aumento das refeições no lar e dos gatos com alimentos, em detrimento de outros), fizeram crescer o nosso mercado lácteo em plena pandemia.

Como nada é para sempre, a redução do “ticket médio” do auxílio emergencial a partir de setembro de 2020 de R$ 600 para R$ 300 mensais, seu encerramento em dezembro do ano passado e o forte aumento de preços dos derivados ao consumidor final (observe no gráfico 1 o preço médio da muçarela no varejo da cidade de São Paulo) fizeram estagnar e, possivelmente, começar a recuar o consumo.

Gráfico 1. Preços médios da muçarela ao consumidor na cidade de São Paulo (*)


(*) – preços deflacionados pelo IGP-DI
Fonte: elaborado pela equipe do MilkPoint Mercado, com base em dados do IEA e da FIPE.

Começando 2021 num cenário de mercado bastante complicado e com perspectivas econômicas ainda desfavoráveis, o governo federal sinaliza para o retorno do “corona voucher”. Valores mensais por pessoa atendida, total de desembolso do novo programa e período de pagamento ainda não estão definidos, mas podem-se estimar os possíveis impactos no mercado lácteo, principalmente comparando ao que observamos no ano passado.

No gráfico 2, temos a estimativa de impacto do “corona voucher” (como % do PIB trimestral) em 2020 e diferentes cenários de impacto (em função das diferentes opções comentadas pelo mercado) em 2021.

Gráfico 2. Impactos do auxílio emergencial na economia brasileira (com% do PIB de cada trimestre) – 2020 efetivo e 2021 estimado.


Fonte: elaborado pela equipe do MilkPoint Mercado com base em dados do Banco Central e em informações do mercado a respeito do novo auxílio emergencial

Ainda analisando o impacto do auxílio emergencial em 2020, percebe-se que o valor desembolsado foi bastante relevante para o PIB do segundo e do terceiro trimestre do ano (representando, respectivamente, 7,1% e 5,4% do PIB efetivo daqueles trimestres). Ao mesmo tempo, a redução do montante por pessoa reduziu o impacto para somente 0,4% do PIB no quarto trimestre do ano.

Para 2021, os três cenários teóricos apresentados para o novo “corona voucher” seguem informações divulgadas a respeito pelos diferentes meios de comunicação: início em março/2021, duração de 4 (quatro) meses e atendimento de cerca de 34 milhões de pessoas (metade dos beneficiários da primeira fase do corona voucher). Os três cenários de valores por pessoa considerados foram os seguintes:

  • Cenário “laranja”: valor de R$ 300/mês durante 4 meses
  • Cenário “cinza”: valor de R$ 250/mês durante 4 meses
  • Cenário “verde”: valor de R$ 250/mês durante 2 meses e de R$ 200/mês pelos 2 últimos meses

Na melhor das hipóteses (pagamento de R$ 300/mês durante 4 meses), o impacto estimado no PIB brasileiro é de 1,6% no segundo trimestre do ano — bastante menor do que aquele verificado no segundo trimestre de 2020.

Ao mesmo tempo, os patamares de preços este ano (mais elevados do que no ano passado, pelo menos até o momento), tendem a reduzir o efeito deste recurso adicional no mercado. Por fim, outros efeitos como alterações de hábitos alimentares e na cesta de gastos (privilegiando alimentação e lácteos) tendem a ser menores este ano.

No resumo, ruim com ele, pior sem ele. Um provável novo auxílio emergencial, nos moldes em que vem sendo divulgado, tende a ter um impacto muito menor na economia (e no setor lácteo) do que teve em 2020. Não esperemos por um novo milagre!

Fonte: MilkPoint

Larissa Schäfer
Publicado por Larissa Schäfer

Formada em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo (UPF).

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