Tripanosomose bovina: como esta doença se espalha

No artigo anterior, falamos um pouco sobre algumas importantes características do agente causador da Tripanosomose, comentamos sobre como ela chegou no Brasil e, por fim, citamos as regiões onde estão acontecendo surtos nos rebanhos. Agora, chegou a hora de entender um pouco mais sobre onde este protozoário se “esconde” e como ele se espalha nos animais.

Fontes de infecção

Fonte de infecção é o nome que atribuímos ao local onde os parasitos podem ficar “escondidos”, enquanto aguarda o momento certo para invadir o organismo de um novo animal. Mas, esperar não é algo fácil para este protozoário que vive no sangue dos bovinos.

Para ilustrar essa dificuldade, pensando na atual situação da doença em território nacional, faço a seguinte brincadeira e comparação: Trypanosoma fora do sangue é como um peixe fora da água. Assim, fica mais fácil entender o quanto este parasito depende do sangue para se desenvolver e reproduzir.

Portanto, em condições normais, a água, solo e ar não são fontes de infecção, pois o parasito não sobrevive nestes ambientes por muito tempo. Fonte de infecção será o próprio sangue de animal já parasitado1.

Quais animais podem estar parasitados?

Na América do Sul, assim como na África, este protozoário infecta principalmente bovinos. Mas, pode ser também detectado em equinos, ovinos, caprinos, búfalos, lhamas, alpacas e veados2.

Nos bovinos brasileiros, tripanosomose já foi identificada afetando rebanhos de corte (Nelore, Angus, Brahman) e de leite (Pardo Suíço, Gir e Girolando)3,4,5.

Como ocorre a transmissão?

A resposta pode ser bem simples. Basta fazer o uso compartilhado de uma mesma agulha entre os animais, durante aplicação de vacina ou medicamento, por exemplo (Figura 1). É através dessa agulha contaminada com sangue que o protozoário pode sair de um animal parasitado e rapidamente contaminar todo o rebanho1.

Mas, será que isso é comum? Sim! Podemos citar, como exemplo, os manejos de vacinação sem boas práticas e a aplicação diária de ocitocina em vacas lactantes (que é feita pela via endovenosa) (Figura 2). É interessante pensar que a tripanossomose bovina se disseminou no mesmo período em que este último manejo se popularizou nas vacas em lactação2.

Basta uma pequena gota de sangue fresco para contaminar uma agulha, permitir que o protozoário fique vivo durante alguns minutos, e ser inoculado na pele, músculo ou veia de outro animal1.

Figura 1. Seringa, agulha e frasco de medicamento contaminados com sangue de animal infectado (Bastos et al., 2017).

 

Figura 2. Uso compartilhado de agulha durante aplicação de ocitocina (Bastos et al., 2017).

 
 

Então preciso me preocupar só com as agulhas?

Não! Por isso vale relembrar algo já mencionado no primeiro artigo. Por exemplo, a transmissão também pode acontecer pela inoculação de sangue fresco e contaminado, que fica retido no aparelho bucal de mutucas (mosca grande que alimenta de sangue)2. Com relação às outras moscas menores, que também alimentam de sangue, ainda não temos certeza para confirmar que elas podem fazer o mesmo que as mutucas. Entretanto, existe a suspeita.

Afinal, qual é o sinal de uma vaca doente?

Agora estamos prontos para responder esta pergunta. Então, te encontro no próximo artigo. Até lá!

 

Referências

1.    Bastos TSA, Faria AM, Madrid DMdC, Bessa LCd, Linhares GFC, Fidelis Junior OL, et al. First outbreak and subsequent cases of Trypanosoma vivax in the state of Goiás, Brazil. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária. 2017;26(3):366-71.

2.    Desquesnes M. Livestock trypanosomoses and their vectors in Latin America: OIE (World Organisation for Animal Health); 2004.

3.    Linhares GFC, de Carvalho Dias Filho F, Fernandes PR, Duarte SC. Tripanossomíase em bovinos no município de Formoso do Araguaia, Tocantins (relato de caso). Ciência Animal Brasileira. 2006;7(4):455-60. 

4.    Silva ASd, Costa MM, Polenz MF, Polenz CH, Teixeira MMG, Lopes STDA, et al. Primeiro registro de Trypanosoma vivax em bovinos no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Ciênc rural. 2009;39(8):2550-4. 

5.    Davila AMR, Ramirez L, Silva R. Trypanosoma vivax en Amérique: morphométrie et spectre d'hôtes. Revue d’élevage et de médecine vétérinaire des pays tropicaux. 1998;51(1):29-35. 

Fonte: MilkPoint

Redação Destaque Rural
Publicado por Redação Destaque Rural

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