Cenário de plantas daninhas no cultivo do milho na região centro-oeste

*Por Décio Karam

O cultivo de milho no Centro-Oeste do Brasil ocorre, predominante, após o cultivo da soja precoce, no período da safrinha. Dentre os fatores que limitam a produtividade, um dos principais problemas enfrentados pelo agricultor é a presença de plantas daninhas que, se não controladas, podem ocasionar perdas acima de 80%.

São diversas plantas daninhas presente na cultura do milho, como: corda-de-viola (Ipomoeas spp.), apaga-fogo (Alternanthera tenella), e capim-colchão (Digitaria horizontalis). Além destas espécies, tem crescido de importância o sorgo-selvagem (Sorghum arundinaceum), a vassourinha-de-botão (Spermacoce verticillata), e o caruru (Amaranthus hibridus). Tanto a vassourinha quanto o caruru tornam-se importantes, principalmente, pela agressividade e dificuldade de controle.

Devido ao contínuo uso do mesmo mecanismo de ação, o número de plantas daninhas resistentes a herbicidas tem aumentado no mundo e no Brasil. A nível mundial já são conhecidas 262 espécies, infestando 93 culturas em 70 países. No Brasil são 29.

A introdução de cultivares de soja, milho e algodão tolerantes a glyphosate tem contribuído para o aumento no número de espécies resistentes a este herbicida.  No Brasil, a tolerância do milho ao herbicida está em 73% no verão e 66% na segunda safra.  Em soja, acima de 90%. A primeira planta daninha resistente ao glyphosate no Brasil, em milho, foi descrita em 2005, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. A partir de então mais cinco espécies, inclusive com resistências múltiplas, já foram adicionadas.  

O Centro-Oeste brasileiro se destaca como a principal região produtora de milho no país, sendo realizada majoritariamente durante a safrinha. Este fato indica que o manejo de plantas daninhas na cultura é realizado, em maior escala, em locais com regimes hídricos mais restritos e temperaturas mais altas. Estas condições diferem das condições do plantio de verão, quando a precipitação e temperatura são mais elevadas e o ambiente mais úmido. Desta forma, a presença de plantas daninhas no inverno seco tende a ser menor e apresentar menor diversidade do que no verão. A cultura do milho segunda safra no Centro-Oeste é iniciada no final do verão e se estende para o inverno.

A baixa precipitação associada a altas temperaturas pode ser um aliado na redução de infestação de plantas daninhas. O controle químico é método mais utilizado pelos agricultores. Porém, muitas vezes, a aplicação é realizada em condições não favoráveis. É comum ocorrer aplicações fora do estádio recomendado, reduzindo sua eficácia e favorecendo a seleção de biótipos resistentes. 

Outro fator para redução da eficácia dos herbicidas está no momento da pulverização. Em condições de estresse hídrico, as plantas apresentam desbalanço entre a absorção de água pelas raízes e a transpiração através das folhas. Este fato pode acarretar fechamento dos estômatos, consequentemente, levando a planta à paralização do crescimento. Com isso, a penetração, a absorção e a translocação de herbicidas ficam prejudicadas. As altas temperaturas e a baixa umidade relativa do ar também contribuem para a perda da eficácia devido ao aumento da sua volatilização e evaporação das gotas de pulverização. Entretanto, existem no mercado adjuvantes e pontas de pulverização que amenizam estes efeitos.

Cuidados também devem ser tomados quanto ao vento e velocidade no momento da aplicação, que podem contribuir para o aumento da deriva dos herbicidas para fora da área de pulverização, ocorrendo danos em culturas/plantas sensíveis ou até mesmo intoxicação de pessoas.

Para o controle químico o produtor rural deverá ter em mente que existe uma legislação vigente que precisa ser respeitada. Estes produtos só devem ser adquiridos através de receita agronômica emitida por um profissional habilitado, que deverá indicar os EPIs necessários, bem como, as recomendações técnicas para o correto uso. No milho estão registradas 366 marcas comerciais de herbicidas, referente a 32 ingredientes ativos.

Dentre as principais plantas daninhas presentes no Centro-Oeste estão:

Trapoeraba (Commelina spp.): espécie de difícil controle, em função da sua capacidade reprodutiva por meio de sementes aéreas, subterrâneas e enraizamento de porções do caule. Vários produtos estão registrados para o controle desta espécie e o momento da aplicação faz a diferença.

 Capim-amargoso (Digitaria insularis): espécie perene, que se dissemina por sementes e por rizomas. Suas sementes são leves e facilmente dispersas pelo vento. Atualmente, o capim-amargoso resistente a glyphosate está presente em praticamente todas as áreas de soja e, consequentemente, nas culturas do milho semeadas em sucessão.

Buva (Conyza spp.): no Brasil foram identificadas três espécies de Conyza, (1) bonariensis, (2) canadensis e (3) sumatrensis.  A buva é uma planta anual que se propaga por sementes. As três espécies já apresentam biótipos resistentes ao herbicida glyphosate.

Capim-pé-de-galinha (Eleusine indica): é classificado como uma das cinco mais problemáticas espécies de plantas daninhas do mundo. Está presente em todas as regiões do país, mas com poucas áreas com alta infestação, quando comparada com outras espécies.

Vassourinha-de-botão (Spermacoce verticillata): é uma planta perene, ou seja, pode apresentar ciclo de vida por mais de dois anos quando não controlada. A tendência desta espécie é aumentar sua incidência nas lavouras, caso os produtores não adotem manejo mais adequado nos sistemas de produção.

Capim-custódio (Pennisetum setosum): planta perene que pode reproduzir por sementes ou rizomas. A dificuldade destas espécies está associada da mesma forma as outras gramíneas perenes. Em estádios avançados esta planta se entouceira o que dificulta seu controle.

Plantas voluntária: este é um problema comum que os agricultores estão enfrentando, principalmente, quando estão semeando em sucessão culturas com mesma transgenia. Plantas de soja e algodão têm sido encontrada nas lavouras do milho, o que irá ocasionar perda de rendimento da cultura, além de serem hospedeiras de pragas e doenças. O controle destas voluntárias tem que ser realizado cedo: no milho, o manejo das plantas daninhas deve ser realizado entre 20 e 40 dias.

Manejo entressafra: o manejo de plantas daninhas durante a entressafra costuma ser negligenciado pelos produtores, o que pode contribuir para o aumento do banco de sementes da área e do custo de produção das lavouras. Além disto, o produtor deve estar atendo ao estádio de crescimento das plantas, uma vez que plantas mais jovens são mais fáceis de se controlar.

Uso de cobertura do solo (integração, braquiária, milheto, entre outros): o método de controle da cultura é uma estratégia de manejo de plantas daninhas que tem sido utilizada por um número crescente de produtores. O efeito da cobertura morta no solo já é conhecido há muito tempo, mas nos últimos tempos esta prática ficou comprometida. Atualmente, o produtor tem a possibilidade de trabalhar com a braquiária associada ou não com outras espécies. O produtor também poderá fazer uso de outras espécies, como o milheto, feijão de porco, mucuna, aveia preta, aveia branco, nabo forrageiro e sorgo. Para o manejo de plantas daninhas é importante a quantidade e a distribuição de palha que a espécie de cobertura deixará no solo.

*Membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Ph.D, pesquisador de Manejo de Plantas Daninhas da Embrapa Milho e Sorgo; e Alexandre Ferreira da Silva, doutor em Fitotecnia e pesquisador de Manejo de Plantas Daninhas da Embrapa Milho e Sorgo

Redação Destaque Rural
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