China define o limite da alta dos grãos

A forte demanda chinesa por soja dos Estados Unidos nas primeiras semanas de setembro, mês que marcou o início da safra 2020/21 no país, levou os contratos futuros de segunda posição de entrega do grão a alcançarem a maior média mensal desde maio de 2018 na bolsa de Chicago.

Segundo cálculos do Valor Data, a alta em relação à média de agosto desses papéis chegou a 10,64%. Em relação a dezembro, o avanço foi de 8,04%, e ante setembro de 2019, chegou a 12,1%. Em boa parte de setembro, os contratos foram negociados acima da barreira de US$ 10 por bushel, o que animou os exportadores americanos e, mais ainda, os brasileiros, que também têm o câmbio jogando a favor de suas vendas.

A publicação “Estudos sobre a Realidade Argentina e Latinoamericana (Ieral)”, da Fundación Mediterranea, confirmou que os principais países exportadores de soja do mundo – Brasil, EUA e Argentina, nessa ordem – estão absorvendo a alta em Chicago e que, no momento, conseguem negociar a matéria-prima a valores médios 10% superiores aos de agosto e 25% maiores que os de abril e maio.

Segundo o órgão, no caso do milho, que nos EUA e na Argentina “disputa” áreas de plantio com a soja – no Brasil, a maior parte do cereal é plantado na segunda safra, depois de colhida a oleaginosa –, os preços obtidos atualmente pelos exportadores são também 10% mais elevados que os praticados em agosto, e na comparação com abril e maio a alta chega a 16%.

Conforme o Valor Data, os papéis de segunda posição de entrega do milho encerraram setembro com valor médio 9,83% maior que o de agosto, no maior patamar desde fevereiro deste ano. Ante dezembro, portanto, ainda houve retração de 3,95%, e ante setembro de 2019 a baixa foi de 0,72%.

“Essa escalada de preços responde mais à pressão da demanda, que é basicamente gerada por uma aceleração das importações chinesas nos últimos meses. E existem outros países menores do Sudeste Asiático que também estão empurrando os preços para cima”, avaliou Juan Manuel Garzón, autor do relatório da Fundación Mediterranea.

No caso da soja, realçou Garzón em sua análise, a média das importações da China foi de 10,3 milhões de toneladas entre junho e agosto – um fluxo recorde que, anualizado, resultaria em compras de 123,6 milhões de toneladas. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), na safra 2019/20 o país asiático importou 98 milhões de toneladas, e em 2020/21 o volume deverá atingir 99 milhões.

No mercado de milho, as importações da China, onde a produção é robusta – serão de 260 milhões de toneladas em 2020/21, segundo o USDA –, ainda são pouco expressivas. Foram 7 milhões de toneladas em 2019/20, de acordo com o órgão americano, e o volume deverá se manter estável na atual temporada. De qualquer forma, compras chinesas do cereal americano também ajudaram a sustentar as cotações do milho em Chicago em setembro.

Para Garzón, a dúvida é quanto a persistência dessa “voracidade” da China por soja, já que é difícil saber qual será de fato a expansão do consumo no país e quais os seus planos para o acúmulo de estoques de grãos, indispensáveis para garantir a oferta de rações. Como já informou o Valor, a China está reconstruindo sua produção de suínos depois dos estragos causados pela peste africana e, ao mesmo tempo, a demanda continua forte na cadeia do frango.

Enquanto isso, os exportadores disputam palmo a palmo a clientela chinesa, numa corrida em que os americanos, que ficaram para trás nas últimas safras por causa das disputas comerciais entre Washington e Pequim, tentam recuperar o terreno perdido para os brasileiros. As disputas geraram as primeiras retaliações mútuas quando a peste suína africana começou a se alastrar na China, e começaram a arrefecer já em meio ao projeto chinês de recuperação da cadeia de suínos.

Embora estejam ampliando as vendas de soja à China, os EUA veem no Brasil um oponente difícil de ser batido. “Indiretamente, a pandemia resultou em uma taxa de câmbio mais favorável para o real brasileiro, o que aumentou a competitividade do país e o ajudando a embarcar quantidades recordes de soja para a China no primeiro semestre do ano”, diz análise divulgada pelo Serviço Agrícola Estrangeiro (FAS) do USDA.

Das principais “soft commodities” exportadas pelo Brasil e referenciadas na bolsa de Nova York, foram pequenas as variações entre as médias mensais de setembro e agosto dos contratos futuros de segunda posição de entrega, embora tenham sido registradas oscilações expressivas em alguns pregões do mês passado.

Segundo os cálculos do Valor Data, o suco de laranja fechou setembro com um valor médio 2,8% menor que o do mês anterior, mesmo sem novidades do lado dos fundamentos de oferta e demanda. Empurrado por notícias sobre o clima no Brasil, o café subiu 1,1% na comparação. Sob a influência do petróleo, o preço médio do açúcar recuou 2,66%. O algodão, por outro lado, teve alta de 2,03% na bolsa de Nova York.

Estoques americanos

Após uma colheita relativamente pequena nos Estados Unidos na safra 2019/20, por problemas climáticos e pelo desestímulo dos produtores do país por causa das disputas comerciais entre Washington e Pequim, os estoques americanos de soja somavam 14,2 milhões de toneladas no dia 1º de setembro, quando começou oficialmente a safra 2020/21 no país, 42% menos que no início do ciclo 2019/20, informou ontem o USDA. Os estoques de milho, por sua vez, somavam 50,8 milhões de toneladas, uma queda de 10% na mesma comparação. E os estoques de trigo também recuaram, 8%, para 60 milhões de toneladas. Os números para soja e milho ficaram bem abaixo das expectativas dos traders, o que motivou a alta dos preços desses grãos na bolsa de Chicago ontem. Para analistas, o cenário pode resultar em novas valorizações das cotações.

As informações são do Valor Econômico.

Fonte: MilkPoint

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