Herbicidas em pastagens: quando aplicar e o melhor retorno do investimento

Por Neivaldo Tunes Cáceres*

O mês de setembro, marcado pela equinócio do dia 22, com o fim do inverno e início da primavera, também sinaliza o início de mudanças climáticas marcantes: fim da seca na maioria das regiões do Centro, Norte e Oeste do país, aumento do fotoperíodo ou horas de luz diária e elevação das temperaturas e da umidade relativa do ar. O período precedente de inverno, com seca e baixas temperaturas, relativizados que nem tão seco no Sul, nem tão frio no Centro-Oeste e Norte, mas inegavelmente limitado quanto aos fatores de desenvolvimento das plantas, faz com que estas modifiquem suas estruturas para atravessar esse período de restrições. As folhas caem ou secam dependendo da espécie, em outras reduzem seu número, o tamanho e espessam sua cutícula. O sistema radicular, extremamente dependente das condições químicas e físicas do solo para determinar seu volume, também diminui sua atividade e desenvolvimento. Todas essas alterações direcionam-se num único objetivo de preservação, diminuindo seu metabolismo para minimizar os gastos de energia da planta e a consequente perda de água para o ambiente por evapotranspiração. Essas alterações fisiológicas, já tivemos a oportunidade de mencioná-las em nosso artigo de maio de 2020 nesse veículo: "Aplicação foliar de herbicidas: exigências climáticas e fisiológicas da planta" (inserir a conexão eletrônica para o texto mencionado), quando o foco foi a planta daninha. Neste texto direcionaremos nossa atenção para a pastagem. Qual a melhor época, o melhor método de controle e quando podemos obter os melhores retornos técnicos e financeiros com o investimento feito no controle das plantas daninhas nas pastagens.

A janela de aplicação

As alterações fisiológicas das plantas em função do clima logicamente ocorrem tanto nas plantas daninhas como nas forrageiras. Do ponto de vista das plantas daninhas, a janela de aplicação para seu controle é relativamente ampla, iniciando após algumas semanas das primeiras chuvas, em setembro/outubro em algumas regiões, ou até novembro/dezembro em outras, onde o reinício das chuvas é mais tardio, indo até o início do outono, em março ou até abril. Ou seja, respeitadas as condições climáticas de cada momento de aplicação, caso a caso, tem-se uma janela de aplicação foliar de até seis meses. Entretanto, considerando a planta forrageira, essa janela é muito mais restrita, e é nisso que focaremos.

A estacionalidade da produção forrageira

A pastagem possui um claro ciclo de produtividade diretamente ligado às condições climáticas, denominada estacionalidade da produção forrageira, descrita em inúmeros estudos, e coloco aqui um exemplo bastante representativo, apresentado pelos pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste, São Carlos-SP, em uma pastagem de Brachiaria brizantha cv. Marandú, adubada durante as águas, e manejada intensivamente sob pastejo rotacionado, sem irrigação, em 1999.

Constata-se uma elevação na produtividade da pastagem a partir de novembro, declinando drasticamente a partir de abril. Consideremos esse gráfico e imaginemos uma pastagem livre de plantas daninhas, apta a expressar toda sua potencialidade produtiva, e fica muito fácil definir quando temos que intervir no combate das plantas daninhas: ali, logo no início das águas, onde a planta forrageira passará pelas condições ambientais de máximo potencial produtivo, sem sofrer a competição pelos fatores de produção vegetal (água, luz, nutrientes, e principalmente, espaço, que decorrem da matocompetição).

Na contramão disso tudo, imagine uma aplicação foliar mais tardia, nos meses de março, ou até abril, a ordem de retorno que obteremos na produção de forragem. Praticamente nula.

Exemplificando com fatos por mim vividos, trago aqui algumas fotos de uma pastagem da região do Bolsão do MS, no município de Ribas do Rio Pardo, com altíssima infestação por camboatá (Tapirira guianensis) em pastagem de Brachiaria brizantha. Era fevereiro de 2011 e uma área havia sido tratada efetivamente em dezembro de 2010 e outra, ao lado, em janeiro de 2011, ambas vedadas há mais de 60 dias, ou seja, na ocasião da visita, a primeira área estava com 60 dias de tratamento, livre de competição nos meses de janeiro e fevereiro, e a segunda área estava com 30 dias de tratamento, tendo apenas o mês de fevereiro para sua recuperação. As fotos falam por si só, vejam o detalhe de cada área:

A - Área não aplicada B - Área tratada em dezembro(60 dias) C - Área tratada em janeiro(30 dias)


Na foto A podemos ter uma ideia da infestação da pastagem, onde praticamente inexiste capim; na foto B, a área tratada em dezembro, com 60 dias de recuperação, onde se observa o capim na altura da canela de uma pessoa, e na foto C, a área ao lado tratada em janeiro, com 30 dias de recuperação, onde o capim mais ralo pouco passa da altura dos pés.

Este exemplo, que mostra cabalmente o benefício do controle precoce das plantas daninhas em relação ao início das chuvas, permite também reforçar a extrema importância para que a pastagem se recupere antes de se iniciar ciclos de pastejo. Caso o pecuarista libere os animais sem a recuperação adequada do capim, há um grande risco que a pastagem não consiga cobrir o solo novamente, surgindo novas áreas de solo aparente e abra a porta para novas reinfestações, pondo por terra todo trabalho feito.

Outros benefícios do controle precoce das plantas daninhas

Além do maior retorno em produtividade da pastagem, o controle precoce é na grande maioria dos casos mais econômico que se for feito quando as plantas daninhas estiverem mais desenvolvidas, ou em fim de ciclo, e com doses menores de herbicidas, o tratamento foliar é comparativamente menos injuriante para a pastagem.

De modo geral, os herbicidas direcionados para o controle de plantas daninhas de folhas largas são seletivos para as gramíneas, contudo algum grau de injúria, mesmo que leve, pode ocorrer na pastagem durante alguns dias, ou semanas, após a aplicação. Essa injúria é proporcional à dose de produto que é usada, ao tipo de forrageira, condições climáticas no momento da aplicação e, às vezes, relacionada a algum adjuvante adicionado à calda. Assim, reforçando o conceito, aplicações quando as plantas daninhas estão mais jovens, consequentemente, mais susceptíveis, requerem menores doses para seu controle, que além de menor custo, também serão mais seletivos ao capim.

Alterando o gráfico anteriormente apresentado, dispondo os meses de modo que reflitam o ciclo de aumento e queda da taxa de acúmulo, a partir de agosto, podemos observar mais claramente a época ideal de aplicação foliar de herbicidas, época essa que antecede ao maior diferencial de acúmulo de produção forrageira do período.

Como aplicar o tratamento herbicida

Visto quando aplicar, agora a questão é como aplicar, e nesse momento me vem uma única palavra: rápido. Não no sentido de atropelo de ações e sem o devido cuidado que envolve essa operação, mas no sentido de que seja feita no menor período possível, para que a área a ser tratada seja concluída em condições próximas ao ideal, relativo à sua efetividade de controle e resposta em produtividade do capim.

Quando o pecuarista elege áreas para aplicação de herbicidas, logicamente decorrerá um período entre o início e o fim da operação, e as plantas daninhas muitas vezes podem mudar sua susceptibilidade ao tratamento, caso esse período se estenda muito. Definida uma recomendação de tratamento, essa prescrição é para aquela condição analisada. Algumas vezes, poucas semanas bastam para que a recomendação de um mesmo produto mude para o controle de determinados alvos, e ainda poderemos perder a melhor janela de resposta em produtividade da forrageira. Pensando nesse aspecto, deve-se dimensionar os equipamentos, ou a técnica de aplicação, de acordo com o tamanho da área a ser tratada. Imagine uma área muito grande para ser coberta com um único equipamento tratorizado, com limitações não só quanto a sua capacidade operacional, mas também limitado nos parâmetros climatológicos que não permitem aplicar durante todo o dia, ou chuvas incessantes que impossibilitam qualquer ação no campo por dias. Assim, uma boa estratégia é colocar vários equipamentos de aplicação atuando conjuntamente, ou fazendo uso da aplicação aérea, que é extremamente mais rápida, caso o local permita e a área tenha tamanho mínimo que justifique essa modalidade de aplicação, permitindo que a área a ser tratada seja concluída dentro das mesmas condições do início ao fim do processo.

Outro ponto a considerar na operacionalidade da aplicação é dispor adequadamente de todos os insumos necessários, como produtos, combustível, operadores, peças de reposição e água para a aplicação e maximizar o desempenho das máquinas, agilizando o processo de reabastecimento do equipamento e nas manobras dentro da área. Muitas vezes o operador anda demasiadamente entre o fim de um tanque de reabastecimento de água e produtos para continuidade da aplicação, isso é um tempo precioso perdido, que precisa ser eliminado ou reduzido ao mínimo necessário. Outra ferramenta que não só agiliza, mas também melhora significativamente a qualidade da aplicação, é o GPS, um acessório quase que obrigatório nos dias de hoje, não só por otimizar o deslocamento da máquina e reduzir perdas, como por evitar sobreposições ou, ao contrário, falhas de aplicação. Esses equipamentos têm se tornado a cada dia mais acessíveis tanto na oferta de modelos, como nos valores praticados.

Conclusão

Em resumo, fica a dica de antecipar ao máximo a tomada de decisão sobre a aplicação de herbicidas em uma pastagem, com a identificação da espécie predominante e seu grau de infestação, que determinará a recomendação agronômica de tratamento; a avaliação das condições da pastagem, que definirá o tempo necessário de repouso, e outras práticas acessórias, como necessidade de calcário e fertilizantes para sua total recuperação; e finalmente proceder a aplicação o mais antecipado possível em relação ao início das chuvas, no menor tempo possível entre início e fim da operação, objetivando o máximo retorno possível em produção de capim.

E mãos à obra, que ainda é setembro, em tempo para se fazer o bom uso dessas recomendações na maior parte das regiões produtoras da pecuária do nosso Brasil.

*Engenheiro agrônomo e mestre em solos e nutrição de plantas pela ESALQ-USP. Consultor independente, fundador da NTC ConsultAgro, focado no manejo da vegetação em pastagens, reflorestamentos e áreas não agrícolas.

Redação Destaque Rural
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