Utilização do colostro bovino na alimentação humana

O colostro é uma secreção produzida pelas glândulas mamárias dos mamíferos nos primeiros dias pós-parto. Esta secreção é a fonte nutricional completa do neonato. Em geral, quando comparado com o leite, o colostro apresenta menores níveis de lactose e maiores concentrações de gordura, proteínas, sais minerais, vitaminas, hormônios e, principalmente, imunoglobulinas G (IgG) (MCGRATH et al., 2016; URUAKPA et al., 2002).

É pela ingestão de colostro que o bezerro recebe os anticorpos necessários para a sua imunização, uma vez que a transferência destes, não ocorre pela placenta. Uma vaca saudável produz muito mais colostro do que o bezerro necessita, em média 43,5 kg/vaca (FOLEY; OTTERBY, 1978). No manejo das fazendas, é recomendada a ingestão de colostro equivalente a 10-12% do peso corporal do bezerro na primeira alimentação (3-4 L para um bezerro de Holstein, por exemplo) (GODDEN et al., 2019), já as refeições subsequentes variam dependendo do protocolo seguido pela fazenda. Como apresentado no estudo de Foley & Otterby (1978), depois do terceiro dia pós-parto, o bezerro consumiu, em média, 11 kg de colostro (14-35% do volume gerado por vaca), gerando 32,5 kg de colostro/vaca não utilizados.

Dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (EMATER/RS) apontam que cerca de 2 bilhões de litros de colostro/ano eram desperdiçados, afetando o meio ambiente (SCHNEIDER, 2017). Em 29 de março de 1952 foi proibida a utilização do colostro na alimentação humana, devido às diferentes técnicas de pasteurização em relação ao leite (EMATER/RS, 2017). Sabendo da qualidade nutricional e do potencial do colostro, a médica veterinária e extensionista regional da EMATER/RS Mara Helena Saalfeld avaliou a viabilidade de utilizar o material como suplemento nutricional em alimentação animal e o seu potencial de uso no desenvolvimento de produtos para consumo humano (SAALFELD, 2013).

A partir dos resultados de seus experimentos, buscou alterar a lei que proibia o uso de colostro para seres humanos no Brasil. Em 29 de março de 2017, o presidente Michel Temer assinou o Decreto nº 9.013 com o novo Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal, liberando o uso do colostro no Brasil (BRASIL, 2017). Após, a EMATER/RS realizou oficinas para pequenos produtores rurais sobre a elaboração de alimentos, tais como pudins, iogurtes, bolachas, manteiga e ambrosia, com a utilização do colostro. De acordo com a empresa, todo o produto que contém leite, pode ter esse ingrediente substituído pelo colostro, desde que sejam seguidas as condições adequadas de pasteurização (EMATER/RS, 2017).

No exterior o colostro é considerado uma matéria-prima de valor agregado e fazendas recebem incentivo para a sua comercialização. Os produtos elaborados são, na sua maioria, suplementos alimentares, devido à elevada concentração de IgG presente no colostro. A empresa Deep Blue Helth (Nova Zelândia) produz colostro em pó para ser ingerido com a alimentação. De acordo com a empresa, seu produto promove a estimulação do funcionamento normal do cérebro, melhoria do sistema imune e da estrutura óssea. A empresa Mip Colostrum (Nova Zelândia) também apostou na matéria-prima colostro, produzindo pós, cápsulas e comprimidos mastigáveis à base desse ingrediente. Segundo a empresa, seus produtos contêm 22-25% de IgG e são fontes de vitaminas e nutrientes capazes de aprimorar o sistema imune e proporcionar uma rápida recuperação muscular para atletas.

Como no Brasil ainda há um grande preconceito em relação a esse ingrediente de elevado valor nutricional, devido à proibição do seu uso e consumo durante 65 anos, pesquisas técnico-científicas são necessárias para que essa matéria-prima deixe de ser exclusividade de pequenos produtores rurais e seja processada em indústrias, resultando em novos produtos desenvolvidos e novos empregos gerados.

Ainda há oportunidades para o desenvolvimento de produtos a base de colostro, a fim de minimizar o seu desperdício. Segundo Watson et al. (2017), devido à menor concentração de lactose, esse material pode ser utilizado para o desenvolvimento de alimentos para indivíduos intolerantes a esse açúcar.

Referências bibliográficas

BRASIL. Lei no 9.013, de 29 de março de 2017. É permitida a produção e o beneficiamento de leite de tipos diferentes dos previstos neste Decreto, mediante novas tecnologias aprovadas em norma complementar. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/d9013.htm> Acesso em 27 jul. 2020.

EMATER/RS - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul. Colostro Bovino: A Redescoberta De Um Alimento Humano Funcional E Nutracêutico. 2017. Disponível em: <https://transforma.fbb.org.br/tecnologia-social/colostro-bovino-a-redescoberta-de-um-alimento-humano-funcional-e-nutraceutico>. Acesso em: 27 jun. 2020.

FOLEY, J. A.; OTTERBY, D. E. Availability, Storage, Treatment, Composition, and Feeding Value of Surplus Colostrum: A Review. Journal of Dairy Science, v. 61, p. 1033–1060, 1978.

GODDEN, S. M.; LOMBARD, J. E.; WOOLUMS, A. R. Colostrum Management for Dairy Calves. Veterinary Clinics of North America - Food Animal Practice, v. 35, p. 535–556, 2019.

MCGRATH, B. A.; FOX, P. F.; MCSWEENEY, P. L. H.; KELLY, A. L. Composition and properties of bovine colostrum: a review. Dairy Science and Technology, v. 96, p. 133–158, 2016.

SAALFELD, M. H. Silagem de colostro bovino: Propriedades e potencialidades de usos. 97 f. 2013. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas.

SCHNEIDER, T. Extensionista é homenageada por pesquisa de uso do colostro. Emater.tche.br, 2017. Disponível em: <http://www.emater.tche.br/site/multimidia/noticias/detalhe-noticia.php?id=27384#.XxSeAJ5KjD4>. Acesso em: 17 mar. 2020.

URUAKPA, F. O.; ISMOND, M. A. H.; AKOBUNDU, E. N. T. Colostrum and its benefits: A review. Nutrition Research, v. 22, p. 755–767, 2002.

WATSON, R. R.; COLLIER, R. J.; PREEDY, V. R. Dairy in human health and disease across the lifespan, p. 3-20, 2017.

Fonte: MilkPoint

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